sábado, 11 de abril de 2015

(Parte 34) "Não toque a chama"



Os quatro aventureiros rezavam aos seus respectivos deuses. Lacktum, mesmo sendo um descrente pedia ao líder das divindades asgardianas seu auxílio. Ulfgar, um paladino de Thor, fazia com que sua coragem crescesse a cada vez que pronunciava o seu nome. Siegfried acreditava muito em Tyr, deus da coragem e da estratégia. Agora Bahamunt era outro caso. Falava sobre uma deidade que criou do nada. Nem lembrava qual o nome dele ou dela.
Talvez fosse por terem que enfrentar um demônio. Nenhum deles tinha encarado essas criaturas em combate. Mesmo Lacktum, só uma vez encarou o Cavaleiro Infernal Syrus.
Você sofrerá mais uma vez, todos sofrerão... E tudo se deverá a Thror! Preste atenção, arcano ele será a ruína de tudo que ama. Como de tudo que existe.
Aquelas palavras voltaram a sua mente como um corpo que surge nas trevas. Onde Thror estivesse, poderia ser realmente uma ameaça aos amigos? Ou pior. As profecias se fossem verdadeiras, poderiam ser relacionados a algo mais grave. Afinal, o que seria? Se algo ocorresse não se perdoaria. Não era momento para isso pensou.
A caverna possuía muito lodo. O que dificultava a movimentação naquele poço de energias negativas. Pois cada pedra, cada gota de água, trazia um pedaço do mal que existia ali. Inerente? Perigoso? Não. Mortal.
Desciam pouco a pouco aquele lugar perigoso, com cheiro de morte. Poderes arcanos exerciam influência ali. As rochas pareciam facas afiadas. Aqueles com pele mais sensível se mostravam muito fáceis de ferir. Os únicos que não reclamavam eram o paladino e o guerreiro. Pobres do mago e do arqueiro.
Que sinistro inimigo estaria naquele lugar? Como seria o monstro? Teria forma de um homem? Ou algo pior? Forças das trevas agiam ali, era certeza?
Finalmente chegaram de frente a um salão. Era estranho notar que aquele é um dos poucos lugares com chance de estar relativamente limpo. Como se alguém estivesse preparando o terreno.
Mais um corpo de ogro estava ali fedendo como animal morto no caminho. Mesmo um javali ou urso não teria um odor tão forte quanto aquele. O anão Ulfgar e Lacktum concordarão com essa afirmação. O segundo já sentiu hálitos de certo homem grego, piores que uma tumba recém aberta.
No centro do salão, um círculo surgia. Cheio de detalhes, poderes inerentes, forças ocultas e emanava pouca energia.
E de repente, Ulfgar notou o improvável. Gritou com toda a força de seu peito.
-Siegfried! O ogro ainda vive!

O golpe daquele monstro surgiu como um relâmpago no meio daquele lugar. Aquele machado acertou as costas da armadura do guerreiro humano. Ataque que não deixou Siegfried se manter de pé, com a enchente de sangue que soltou. Tanto que cobriu o rosto de Bahamunt.
Após o golpe, a criatura começou a se levantar com dificuldade. Usou aquela arma como cajado, o usando como apoio. O corpo truculento, pesado e forte parecia se erguer com muita dificuldade. Ele compensava isso com os dentes protuberantes e grandes como os de uma fera antiga. Os olhos estavam fundos, sem expressão de vida. Na verdade, completamente mortos. Mais um morto faminto.
Aqueles aventureiros começaram sua tática. Tanto Ulfgar como Siegfried começaram atacando, mesmo que o segundo estivesse quase morrendo. O anão golpeou as pernas daquele morto. Em seguida, gritando de dor, o humano ergueu a espada com toda força possível e imaginável.
Bahamunt pegou as flechas. Duas ficam com a mão que segurava o arco. A terceira estava preparada para ser disparada. Mirava-a na perna do oponente, o que talvez não fizesse grande efeito. Já que se tratava de um morto faminto, um ser que não sentia dor.
O projétil foi preciso. O osso teria partido. Se sentisse algo.
A cria do outro mundo gritava. Talvez não por dor, visto que não sentia isso. Era uma lamento ou raiva. Era como quisesse fazer todo aquele caos sem sentimento algum. Como quando se corta uma árvore só por cortar. Ou se deixa a mente ficar vazia. E algo estoura dentro de si. No caso, não há nada lá. E esse era o problema.
O som emitido pela monstruosidade fazia os corações gelarem. Talvez os do guerreiro humano ferido e do elfo arqueiro sim, porém, os de Lacktum e Ulfgar não. O mago estava concentrado em um feitiço, forte o bastante para romper a pele morta. Com Ulfgar era diferente: sentia que a força do seu coração, e a fé em seu deus, impedia que ele fosse preenchido com algum mal.
Após o grito sombrio, Lacktum estalou os dedos na direção do inimigo.
-Thats break this by my command.
Em um piscar de olhos o oponente estourou em milhares de pedaços com sua carne já podre. Vários restos mortais caíram sobre Siegfried, Ulfgar e Bahamunt. Nenhum em Lacktum, entretanto. Tudo se devia a um pequeno truque que aprendeu como um mestre do destino. Finalmente estava conseguindo driblar a realidade.
O paladino correu em direção ao ferido Siegfried. O golpe havia sido suficientemente forte para causar uma dor alucinante ao jovem. Com a pequenina mão estendida sobre a profunda ferida, Ulfgar rogou a Thor que fosse feita uma cura. E ela ocorreu.
Seguido a isso, com os pedaços do ogro sobre seu corpo, a força do Filho Predileto de Odin agiu sobre ele, como uma chuva purificadora. Onde antes havia uma ferida, que poderia infeccionar devido aos pedaços sobre si da carcaça podre, não havia mais nada. Com a exceção da marca de uma cicatriz.
Era engraçado imaginar sobre certas funções dos poderes divinos. Se fossem usadas durante uma guerra salvariam muitas vidas. Só que naqueles dias era raro ver homens com fé verdadeira. A mesma que movia montanhas, muitas vezes não conseguia comover corações gélidos. Corações tristes.
Mais uma vez não era momento para devaneios. Ali estava um problema a ser resolvido e solucionado, um mal a ser eliminado. Com espada, martelo e flechas. Já que não poderia contar com os Dragões ao menos tinha novos aliados. Pensou assim Lacktum.
Como em resposta aos seus pensamentos, do corredor superior, surgiam passos. Inicialmente pensou se tratar de mais um ogro, ou quem sabe até do demônio que residia ali. Afinal, se esgueirava lentamente com certeza.
Quando notou uma tocha surgia daquele lugar. Ogros, assim como demônios tinham uma visão que atravessava a noite. Visão noturna. Visão do mal. Eis o motivo de mães impedirem crianças de fazer reinações a noite. Para que não se tornassem alimento, ou algo ainda pior.
Então o que seria? Pergunta errada. Quem seria mais apropriado.
Surgia daquele túnel, luz nos dois sentidos. Iluminação e espiritual. Pois de lá estariam Thror, Seton, Gustavo, Valente e Arctus. Os Dragões estavam mais uma vez naquele velho e antigo mundo.

Após uma confraternização, abraços afetuosos, descoberta do falecimento de amigos, entre outras coisas, Lacktum apresentou os novos companheiros.
-Este é Siegfried. Guerreiro dessas terras, mas que possui os trejeitos dos ingleses. Muito bom rastreador também. O outro – apontando para o elfo – se chama Bahamunt. Do povo belo[1], como podem imaginar. Suas idéias não batem tão bem, se me perdoa a palavra...
-Perdoo. Afinal, deve estar falando de outro Bahamunt – respondeu o grande Elemental do ar.
Alguns membros olharam com estranhamento o jovem elfo. Só Thror ignorava a tudo e todos em relação a alguém tão simples.
-Por último, mas não menos importante, Ulfgar. Anão, líder dessa comitiva, poderoso com o martelo, assim como é com as palavras contra elfos. Paladino de Thror.
Foi quando pensou nas tolices que falou. Quantas vezes Arctus e Gustavo mostraram que odiavam qualquer religião, fora sua suposta crença no Deus. Além de que o mago tratava aqueles dois como se fossem seres humanos. O que para Arctus, nunca seriam.
Sem que notasse, o clérigo se aproximou dos novos colegas de Lacktum. E ironicamente, Arctus cumprimentou cada um deles. O mago até sorriu devido a isso. Parecia até que o padre havia mudado.
-Até o fim dessa jornada irei os converter a fé de nosso bom Senhor Jesus Cristo.
Os três se entreolharam. Estranharam o comportamento daquele homem. Já os membros dos Dragões tinham expressões diferentes. Thror colocava a mão na barriga e ria. Seton escondia o rosto de vergonha. Gustavo conteve o riso, enquanto Valente ficava virando pela cena cômica. Lacktum notou que certos homens não mudam. Nunca. Mesmo.
 
 Finalmente, depois de tudo bem explicado, Lacktum tocou em alguns assuntos mais sérios.
Primeiro o que haviam descoberto até então. Ao que parece, Dragar serviu fielmente Loki por séculos. Sendo o único que nunca traiu sua confiança, ganhou muitos poderes do deus. Porém, foi traído, jogado no plano de Gaya e aprisionado por magos rúnicos. Homens que ainda adoravam os deuses antigos do Norte. Com força muito maior que imaginavam alguns arcanos e sábios. Poderes concedidos a eles na época em que os deuses andavam sobre a terra. Talvez os feitiços para aprisioná-lo nem exista mais.
Segundo, se entre os espolio havia um item arcano. Thror descobriu duas lâminas com o estilo dos vikings antigos. Armas com runas. Poderes antigos. Na língua escrita naquele metal, a espada curta mostrava dizia trovão. A outra tinha escrito trovão. Foi o que mais próximo conseguiram traduzir.
Thror segurou as lâminas e então com ambas, começou a brincar com elas, girando-as. Quando virava as duas via que efeitos surgiam delas. De uma delas – a menor – soltava faíscas douradas. Enquanto a outra – bem maior – fazia zunidos perturbadores e incômodos. Quase ensurdecedores.
O grego deu então de chamar as espadas como Trovoada e Relampejar. Pois elas lembravam os trovões e relâmpagos que enfrentaram na tempestade. A mesma que ceifou a vida de Joseph.
            -Aonde esta Yuri e o resto da tripulação de Salva Ventos? – questionou o mago.
Thror olhou o amigo pesaroso.
-Yuri esta no templo, desde que alcançamos a vila. Parece mais retraído que o normal. Tentamos tirar ele desse estado, mas nada ocorreu...
A perda do amigo deve ter sido demais para o imediato arcano. Bufou um pouco o ruivo e falou:
-Se já viu o que devia grego, vamos em frente.
No mesmo instante, Valente subiu seu corpo até o ombro do mago. Lacktum tirou do seu manto surrado Rec. O escondia entre um pequeno truque arcano, já que se tratava de um familiar, um animal espiritual. O enviou na frente pelo corredor, na falta de um batedor competente. Ele seria seus olhos.

Depois de certo tempo, chegaram ao final daquela armadilha gigantesca. Isso, sem não antes, enfrentar perigos terríveis. Que no caso se demonstravam nas formas de ogros bem treinados. Com todo o conhecimento que Lacktum obteve sobre demonologia, mesmo os mais restritos, Dragar deveria estar querendo deixar escassos os poderes dos aventureiros. Tática básica, até mesmo entre arcanos.
Era o momento de descansarem.
-Dormiremos aqui – falou o líder dos Dragões, notando que era melhor recuperarem as forças, antes de encontrar o tal Venenoso. Era certeza que não venceriam nas atuais condições. Ou até mesmo se estivessem bem.
Cada qual fazia o que é necessário para um improviso de acampamento. Além de algo para deitar. Em pouco tempo tentaram já que a noite finalmente caia lá fora.

Aqui, mais uma vez dividiremos em duas partes os textos sobre os Dragões da Justiça. Uma que se refere à Lacktum e o uso de um instrumento mágico, não usado até então e um sonho de Ulfgar. Comecemos pelo mundo onírico anão.
Este, deitado sobre uma pedra, dormia perfeitamente. Ainda usava a armadura como travesseiro. É fato conhecido, que devido ao seu corpo duro e voltado para magias sobre rochas. O que tornava um pedregulho em algo quase agradável.
Só que sua mente, diferente de seu corpo, caminharia por um trajeto perigoso. Ao qual Dragar fazia para ele.
O paladino estava em um lugar afastado, como uma torre. Negra e feita de ônix. Nunca ouviu ou viu sobre uma formação daquele tamanho. Tão grandiosa e poderosa, com força para derrubar impérios. Erguida pelas mãos de algum anão artesão dos deuses de sua raça ou até mesmo o próprio Thor em pessoa. Era sombria, mas imponência e majestade ela tinha. Como se a enorme construção tivesse vida.
Ulfgar estava na beirada daquela fortificação, quando teria ouvido de suas costas as palavras de um ser sombrio. O estranho era alto, até mesmo para os padrões dos homens mortais. Perigo foi o que sentiu Ulfgar ao confrontá-lo.
 -Gostou desse lugar? Desse forte?
Fitou finalmente o estranho. Quando notou, olhos vermelhos o encaravam.
-Qual o motivo de me mostrar essa torre? O que quer com isso?
-Uma oferta de paz.
-Por qual motivo?
-Ora... Pelo fato que poderá me libertar. Você esta, bem próximo de alcançar minha cela, minha prisão. E com tudo que vi até então é possível que me liberte. Com uma mera menção de uma palavra. Uma palavra que eu conheço e você também.
Ele, o anão, levantou uma de suas grossas sobrancelhas. Estava curioso com aquilo tudo. Estranhou aquele mundo que era lhe dado com tanta facilidade. O demônio continuou.
-Eu posso lhe conceder um exército, um império, um mundo. Só falar a palavra mais poderosa dos mitos asgardianos: Ragnarok.
Nesse instante, Ulfgar virou de costas, abaixou a cabeça. Também colocou as mãos para trás. Quase que como se estivesse refletindo. Pensou e arquitetou sua resposta com a sabedoria e a rigidez dos anões. Mesmo sendo conhecido por sua brutalidade, este povo tem certa delicadeza para lidar com os mais finos e poderosos metais. Conhecidos ou não pelo homem. Os anões poderiam ser perigosos por serem desvalorizados pelos mortais, pensou por alguns momentos o paladino.
As palavras não eram, de todo, uma mentira. Ulfgar já sentiu as tentações de controlar e não ser controlado. Liderar seu povo para um futuro mais especial. Perfeito. Sem as dores dos fracos.
Nunca mais depender dos humanos como Siegfried. Nunca ouvir tolices como as de Bahamunt. Nem tão pouco aturar os Dragões, liderados por Lacktum, o que surgiu do mar. Ar de confiança, aura de magia, superioridade típica dos ingleses. Ridículo. Como o filho de um nobre humano mundano liderava um grupo de heróis? Heróis?Aventureiro estava mais correto?E foi ai que sua mente deve um estalo.
-Concederá? Vai me entregar isso tudo? Só para te libertar
-Sim. Liberdade é algo que até um verme como eu merece.
-E mais nada me pedirá?
-Nada. Mais nada.
-Só um tolo recusaria tal oferta...
Em seguida, pegando o símbolo de Thor como uma arma o levantou de maneira única. De seus símbolos incrustados, uma luz poderosa surgiu como o relâmpago e o trovão, o golpe e o som, o machado e a espada. Era divina a imagem. Poderosa.
-E um tolo eu serei, até os fins dos meus dias nessa terra gélida e Arida! Pois se os mais fracos humanos, sem uma fagulha do poder divino de Valhalla não se vangloriam ou buscam força, não serei eu que aceitarei fonte mais podre e profana! Meu coração se encherá com o poder de Thor! E ele irá cumprir a minha vontade! Você nunca irá cumprir minha vontade ser tão baixo!
-Tolo! Tolo! Não sabe do que posso lhe conceder. Prazeres e luxúrias sonhadas pelos deuses.
-EU não sou um deus! Sou um anão. E sua oferta eu recuso, Dragar, o Venenoso! Assim como você em si, demônio!
O vulto foi sumindo em um turbilhão de fumaça escura e horrível. Negra, cheia de trevas, como o coração do homem mais cruel. Nem ele seria tão difícil de enxergar quanto aquele pequeno cone de ar formado pelo mal de Dragar, o Falso.
Ulfgar não sabia, mas renegou algo que já merecia. E que teria a chance de obter poder como jamais sonhou.

Lacktum demorou a dormir. Estava pensativo. Reflexivo. O que deveriam estar fazendo ali afinal? Quem encontraria.
Esse trecho do livro será colocado mais para frente, pois através de um item arcano, o mago entrou em contato com alguém com quem sempre contou nos momentos mais escuros de sua vida nos últimos setes meses: Halphy, a agora assassina de Sinestro.

A manhã seguinte veio, com um sopro fraco do vento gélido. Todos acordaram com certa dor, apesar de estarem acostumados com acampamentos improvisados. Era ruim o despertar de alguns. Outros nem tanto. O que importava era voltar para a realidade.
Todos despertavam com o cheiro de comida feita por Thror. Salsichas, queijo e algumas frutas que ainda guardava de Avalon. Era bom saber que seu bom gosto permanecia apesar de tudo pelo que já passou. Resquícios da época em que permaneceram na Ilha das Brumas.
Conseguiram esquentar tudo com gravetos achados por Valente e rec. Os dois poderiam ser até pequenos, mas carregavam muito peso quando preciso. O corvo teria descoberto que a última câmara daquele túnel não estava tão longe. Foi isso que Lacktum conseguiu entender.
Todos pareciam bem, apesar do desconfortável leito. Com exceção de Ulfgar. Siegfried, que conhecia bem o anão o questionou sobre seu estado.
-Não sei se devo. Mas se não... Se não falar será algo que o inimigo que. Eu sinto que algo me tentou ontem à noite com presentes e tesouros. Acredito que foi Dragar. E até pronunciou uma palavra a qual exigiram de mim sua pronuncia para libertá-lo de sua prisão arcana. Ragnarok.
Todos se entreolharam quando aquilo foi pronunciado. Temeram quando imaginaram que o demônio usava os sonhos para controlar as vontades dos homens. Lacktum tranqüilizou a todos. Se Dragar tivesse controlado o anão, ele nem teria falado nada do sonho. Arctus comentou se não poderia ser um truque. O mago repudiou a idéia. Demônios são bem mais perigosos do que se imagina, mas previsíveis, ele disse.
Era até engraçado ver que um arcano sabia mais sobre seres das trevas do que um padre. Desde que ele estivesse mesmo certo disso.
-Então, a palavra Ragnarok o libertaria? – disse Lacktum passando a mão no queixo.
-Sim.
Lacktum saltou, arrumou seu manto, finalmente notou que estava sem seu cetro e bufou. Mesmo assim, fechou o punho dizendo:
-Vamos. Tive uma de minhas maravilhosas idéias. E como bem sabe Thror, elas mudam vidas.
Alguns temeram por suas vidas ao ouvirem aquilo.

Desceram por mais um corredor, nele surgiam tantos corpos e teias de aranha que o grupo imaginou estar em um conto de terror. Mas não, aquela era a realidade. Não importava o quanto tentassem fugir daquela bizarra situação.
Seton segurava sua foice, mas com mãos trêmulas. Gustavo e Ulfgar, não demonstravam medo. Já Bahamunt, o elfo ficava brincando com as teias. Thror estava apreensivo. Siegfried ia mais a frente, seguindo o caminho. Lacktum olhava com ares de sagacidade. Já Arctus estava desconfiado, demais com o suposto plano do mago.
-O que pretende mago? O que quer fazer? – perguntou um temeroso clérigo.
-O que mais seria? Se existe uma palavra para libertá-lo, deve existir uma para aprisioná-lo. Ou até enfraquecer ele.
-E qual seria?
-Bem, a palavra chave para libertá-lo se refere ao Crepúsculo dos Deuses, certo? Não é bom pronunciar aquele nome, pois pode ser perigoso. De qualquer forma, o contrário deve fazer o inverso...
Ao falar isso, Siegfried voltou avisando que encontrou uma pedra grande mais a frente. O mago passou o polegar sobre os lábios de forma rápida, enquanto alargava o sorriso.
Passou na frente de Siegfried, tocando a pedra. O guerreiro do norte segurava a única tocha daquele grupo. Lacktum tocava a pedra como se fosse o mais lindo grimório antigo. Ele viu e traduziu mentalmente e pronunciou.
-Abra em nome de Wotan, Wodan e Woden. Os nomes do pai Odin.
Foi quando a pedra se moveu sozinha para o lado. Arctus iria pegar pelo pescoço o mago. Lacktum o deteve.
-Calma meu caro sacerdote. Não o libertei, mas retirei boa parte de seus poderes pelo escrito na pedra.
-Explique! – pediu o sacerdote.
-Acertou – falou Ulfgar – Aqui fala que para se libertar o que esta aqui com o selo, deve ser pronunciar o nome do Crepúsculo dos Deuses. Mas se quiser só se encontrar com o ser que aqui dorme fale os nomes do Pai. E nos usamos esse termo para...
-Odin – disse Lacktum, olhando com ar de sagacidade para Arctus.
O líder dos Dragões pegou rapidamente a tocha nas mãos de Siegfried. Entrou no covil do monstro sem nem piscar. Todos os novos membros daquele grupo estranharam a atitude dele. Como se desejasse a morte. Não era. Muitos dos que o conheciam, inclusive Thror, sabiam que ele nunca a temeu. Nem se entregaria facilmente ao seu abraço. Para um mago, muitas vezes agia com a força de um guerreiro, e a perspicácia de um ladino.

Desciam pelo único local em toda aquela caverna que não possuía teias, nem sujeira, nem crânios, nem ossos. Nada além de uma luz branca, bem tímida. Sem mais nada.
Ao centro, de um salão oval, existia um círculo mágico de contenção. Pelo menos era isso que os voltados às artes místicas notavam. Cheias de marcas antigas. Algumas escritas até mesmo em latim. O que fez os mais sábios questionarem a quanto tempo aquele ser estava trancafiado. Séculos, milênios ou anos? Nunca pensaram nisso.
Foi então, como uma assombração, perceberam que no centro daquele circulo havia um ser único. Em posição que lembrava um feto, ele dormia. Forma humanóide, mas claramente monstruoso. Exalava medo, mesmo sendo pálido como um cadáver. Na verdade, isso causava uma sensação de insegurança maior ainda. Um brilho branco maligno, cruel e horrível irradiava dele. Sem nenhum movimento, nenhuma reação. Como um corpo, petrificado e para sempre inerte.
Porém, Dragar estava vivo. Mais vivo que a serpente com veneno letal. Seja de onde fosse. Sabiam que ele vivia, pois ele se levantou.
Ergueu-se lentamente, como um pedaço de tronco velho no pântano. Ainda assim, com a leveza de uma folha no ar. Naturalmente e de forma quase mística, seu corpo estava ereto. A cabeça – ou algo que mais lembrava um crânio exposto – fitou o grupo de jovens e aventureiros. Na verdade, toda a extensão de suas formas lembrava vagamente um corpo mumificado, um esqueleto, um ser morto. Era possível ver costela, braço, dedo, tudo parecia osso com uma pele quase translúcida por cima de tudo. Onde deveria haver um olho ou dois, existia um par de brilhos vermelhos. Entre eles uma crista formada por chifres protuberantes e todos fora de uma fileira ordenada. Atrás, surgindo da espinha, brotava uma imensa cauda unindo aspectos de serpente e escorpião. Cena macabra, mas que não afugentou nenhum daqueles pequenos Dragões.
Eram fortes no espírito. Eram só fracos no corpo. E acima de tudo eram guerreiros e magos, sacerdotes e druidas, batizados e pagãos. Armas em punhos, palavras arcanas decoradas. Era o momento de derrotar o demônio.

Dragar fitava tudo com os pontos cor de rubi. Fazia muito tempo que não enxergava alguma coisa que se movimentasse naquele lugar. Vez ou outra surgia um animal e insetos. Devorados pelo demônio sumiram do lugar. Assim como antes, ele considerava os homens como alimentos. Como antes, haveria morte
Foi ele quem começou a falar, já que todos estavam com suas armas em mão. Prontos para lutar.
-Ora essa... Meus caros mortais, que tal pararmos por aqui? Esquecermos que existe algum problema entre nós? Pois se refletirem, não existe! Pensem nisso...
Todos se entreolharam. Muitos deixaram suas expressões mudarem, ficarem calmas. Começaram a pensar de forma lógica, já que Dragar nunca foi realmente um problema deles. Era da vila. Que os habitantes daquele lugar sofressem sozinhos lidando com ele. Incluindo Hilde e a velha Urda. Algo que deixaria satisfeitos todos ali.
Nem todos, entretanto, pensavam assim.
Ulfgar, Bahamunt e Gustavo notavam que havia algo estranho entre eles. Uma porção de energia arcana. Um encantamento, ou melhor, dizendo um sortilégio alguns diriam. O guerreiro que servia a Thor notou que aquilo lembrava, quando foi tentado pelo demônio. Os elfos tinham um dom natural para com a magia, o que protegia Bahamunt dos efeitos. Por ultimo, Gustavo já não era atacado daquela maneira pela primeira vez. No reino da França, havia certo tempo, enfrentou harpias que com suas vozes conquistavam os homens. Seu Deus o protegeu nas duas vezes.
Esses três se colocaram mais a frente, com dentes serrados, corpos preparados, mentes nem tanto e uma ponta de desespero. Eles ergueram as armas, com força e determinação.
-Eles podem ter sido ludibriados, mas nós nos mantemos firmes e fortes! Não irá nos vencer, nem acabar com a vila. Pois nossos deuses são fortes – disse Gustavo.
Ulfgar olhou com um rosto de surpresa para Gustavo. Mesmo sendo um homem que serve a Deus, o humano tratou aquele assunto com respeito. Em vez de um único deus falava em deuses. O cristão tratou ao aliado com devido respeito. Algo novo para ele.
Dragar regozijava-se por algum estranho motivo. Ele apontou na direção dos Dragões ainda em transe, com seu dedo flácido e disse:
-Todos os outros, ataquem seus antigos aliados.
Nesse mesmo instante, o grupo dos aventureiros se virou para os três únicos livres do encanto. Lacktum acumulava mana, Thror erguia as duas lâminas, Seton colocava a foice de lado, Valente mostrava os dentes e Arctus retirava o símbolo sagrado, Então Gustavo viu uma grande esperança. O clérigo não conseguiria causar nenhum mal a seres humanos com aquele signo. Sorrisos poderiam ser vistos.
-Agora! Dio salvi le nostre anime! E libraci da ogni incantesimo! Amen!
No mesmo instante, o fogo da justiça preencheu aquele item e uma luz atravessou todo o recinto. Em especial os membros daquele grupo. O demônio se contorceu.
-Maldito sacerdote!
-Mas do que esta falan... – e antes que pudesse terminar a frase, Gustavo olhou com espanto na direção dos amigos que antes estavam sendo controlados pelo ser infernal. Seu palpite estava certo.
Não pareciam estar mais em transe. Era tudo que os amigos necessitavam. O padre havia fingido estar dominado para enganar o monstro.

Os aventureiros, não mais controlados, começavam a ofensiva. Para Dragar não era algo cômodo, mas tudo bem.
Os que começaram a batalha eram os guerreiros sagrados. Suas lâminas já estavam sedentas pelo corpo do demônio. Cada golpe seria mais poderoso que o primeiro. Com a finalidade de derrotar aquele oponente. O martelo abriu caminho por baixo, enquanto a espada subia rapidamente. Parecia que Ulfgar e Gustavo formavam uma boa dupla em combate. Seria útil naquele momento.
Quando o demônio iria contra atacar, recebeu duas flechas no peito. Tinham sido disparadas por Bahamunt. Certeiro como sempre, o elfo louco pulava e gritava como um animal selvagem no cio. Estava extremamente eufórico.
Na mente daquele ser diabólico, surgia uma maneira de afligir a todos. Para tanto, apontou na direção do grupo sem pronunciar uma única palavra – já que estes têm forças arcanas inerentes aos seus corpos – lançou um raio vermelho que mais parecia o caule cheio de espinhos de uma rosa.
O projétil arcano se dividiu entre cada membro do grupo, inclusive o animal Valente. Quando tocava cada corpo, se inundavam com uma onda de dor tão grande que os fazia gritar em agonia. Nada parecia tão cruel e maligno quanto à magia lançada sobre eles. Pense em um sofrimento dilacerante. Agora, imagine ele multiplicado pelo maior número que conheça. Era o que sentiam alguns deles.
Thror se lembrou de quando enfrentou Daehim e os golpes que sofreu do dragão. Lacktum se recordou dos golpes que sofreu dos soldados de Kalic Benton, que mais tarde se provou sendo seu irmão bastardo, Lucian. Seton notava que aquela magia o lembrava dos pedaços de madeira que o atingiram no confronto contra o kraken. Siegfried notava que parecia um maciço de pedra que caiu em sua perna e o fez mancar durante meses. Ulfgar sentiu como um golpe de machado ogro em suas costas, que havia levado no dia que perdeu seu pai. O elfo, Bahamunt, tirou da memória um momento em que teria levado uma flecha na coxa, ainda com trinta anos.
Cada um com seu sofrimento.
E quando parecia que Lacktum seria atingido pela cauda fatal do demônio – que se aproximava lentamente, deliciando-se do sofrimento dos aventureiros – uma espada foi lançada contra o peito da criatura. Ela foi literalmente jogada.
A magia cessou. Eis que da entrada da câmara surge um homem que misturava as peles típicas dos homens do norte, com tecidos finos dos gregos. Completando com uma armadura e um símbolo sagrado relativo a Zeus.
-Raios! Era mais para cima...
E assim, introduzimos Tom Drake Harem aos Dragões da Justiça. Que os deuses já haviam ligado muito antes desses fatos.

-Quem é você, mortal desgraçado? – gritou o demônio.
-Sou chamado em minhas terras como Tom Drake, servo do deus do trovão e futuro ira de Zeus! Mas pode me chamar de Tom Drake Harem. Gosto dessa palavra Harem.
-Pois então pereçam você e seu deus, estrangeiro imundo.
Dragar esticou o braço, com a palma na direção de Tom. Quando o fez, um jato de gelo brotou de sua mão, junto com ar resfriado poderoso. No final, a magia veio com tamanha velocidade, que o clérigo só deve tempo de colocar seu escudo na frente.
Congelados, braço e escudo, seu lado esquerdo do corpo estava praticamente inutilizado. Com a mão direita, levantou uma faca de modo desafiador.
-Por qual motivo esta parada criatura maldita? Eu ainda tenho o braço direito. E se não tivesse os braços usaria a perna direita, e depois, esquerda. Por último usaria os dentes, ou quem sabe uma cabeçada. Pois já estive pior. Um mero arranhão. Isso é um simples ferimento de guerras. Eu...
-Cale-se inseto humano! Mesmo com minha magia cessando os outros ainda sentem as dores da minha magia! E eu posso lançar elas sem nem proferir palavras mágicas.
O sacerdote olhou para trás do demônio. Notou uma sombra disse:
-Cuidado! Atrás de você!
O demônio riu e debochou de seu adversário. Seu erro fatal.
Literalmente, das sombras, um punho atravessou o peito do inimigo. As trevas foram tomando forma humana. Seu pulso, mesmo sujo devido aos órgãos bizarros atravessados, ressaltava um bracelete cheio de magia e poder. Os Dragões olhavam tudo aquilo, cheios de admiração.
-Isso não foi você estranho? – falou um mais aliviado da dor Lacktum, mas ainda cauteloso. As tormentas físicas e mentais o abandonaram. Assim como deixavam os seus companheiros de viagem.
-Gostaria de falar te falar que fui eu...
O punho se contrai, fazendo o corpo demoníaco cair ao chão. O pobre diabo não falou, nem soltou qualquer expressão. Só olhava atônito para o seu algoz do chão. Finalmente se revelava o assassino. Um manto clerical o cobria com detalhes negros, verdes e dourados. Além disso, no pescoço carregava o símbolo de Loki.
-Deveria acreditar mais nos homens. Vez ou outra falam a verdade. Poderiam ter salvado sua vida.
Os cabelos daquele homem eram arrepiados como os pelos de um ouriço. E seu sorriso malicioso como o bote de uma cobra.
Ele se abaixou sobre o pobre demônio, arrancando a ponta de sua cauda. Guardou dentro do seu manto aquele item único.
Olhou para todos calmamente. O grupo fitou tudo, ainda confusos pelos golpes arcanos até então. Riu com o canto da boca, olhando friamente os jovens naquela cena. Parecia que havia se passado trinta verões em seu rosto sacerdotal.
Cheio de maldade ele falou:
-Não se preocupem. Não vou acabar com vocês. Não hoje, não desse modo.
Os mais poderosos, os mais fortes tentaram se levantar. Inutilmente. Com o vento e sombras, ele sumiu. Desapareceu nas mesmas trevas que o fizeram surgir.
Tom começou a ajudar cada um dos Dragões. Utilizando magias de cura, conseguiu tratar os ferimentos daqueles homens. Todos exaustos cansados e sentindo dores por todo o corpo como se acabassem te sair de uma guerra. Haviam terminado aquela missão pelo menos.

-Qual é o seu nome mesmo homem? – disse Lacktum erguendo-se contra a parede. Ainda sentia as dores dos efeitos arcanos de Dragar, o Venenoso.
-Meu nome é Tom Drake Harem. Clérigo de Zeus, que surgiu nessas terras como uma luz nesse lugar devastado.
-Muito... Modesto... Zeus? É um grego?
-Sim.
-Veja Thror! – se virou para o companheiro guerreiro – Um compatriota... Mais ou menos.
Thror olhou bem para o sacerdote. Diferente do combatente, esse homem tinha sim traços de um grego. O tom de pele, os cabelos, os olhos e até mesmo o nariz, demonstravam que ele tinha uma descendência helenística.
-Prazer, Thror Tzorv – e estendeu o braço.
-Tom. Mas seu nome não parece nome de grego esse seu.
-O seu também. Nem nunca será. Nunca será.
Tom olhou para o homem com cicatriz e começou a rir. O guerreiro Thror também começou a fazer o mesmo. Foi hilário ver os dois rindo. Talvez fosse coisa de gregos. Ou não. Quem saberia?
O grupo todo saiu daquela caverna. Uma tempestade começava lá fora. Cheios de cansaço e dor. Usando armas como bengalas, tentando se apoiar o quanto podiam. Fixar as pernas era quase uma tortura.
Ao chegarem lá, viram uma coisa estranha. Um anão de cabelos loiros. Portava um escudo retangular com runas anãs poderosas, armadura dourada não deixando nenhum espaço desprotegido do corpo diminuto, elmo com forma de dragão e um martelo tão grande que sua ponta era maior que seu crânio. Ele estava ali impassível e imóvel. Como uma rocha.
Antes de falarem ou até mesmo atacarem o anão, ele falou:
-Se acalmem jovens. Vim aqui ajudar todos. Há muitos feridos. Deitem-nos. Sou clérigo.
Todos ali olharam com certo temor. Logo ignoraram isso já que as palavras proferidas pareciam conter verdade. Com todo o cuidado Tom ajudou cada um dos membros daquele grupo. Deitou aqueles homens com o auxilio do pequeno elemental da terra. Sempre mostrando o devido cuidado.
Em seguida, com as palmas de suas pequenas mãos, surgiam luzes em formas esféricas e linhas divinas. Todas surgindo devido às palavras proferidas na língua anã.
O anão Ulfgar notando isso olhou para o seu compatriota. Notava que ele usva um símbolo do deus dos anões[2].
-Quem é você irmão? – perguntou o furioso anão paladino.
-Chamo-me Deenar, clérigo e uma chama da forja. Estou aqui a mando do amigo de meu mestre. O que se chama Kalidor.
-O conhecemos – disse Lacktum – Mestre você disse? Aonde ele esta? E quem é?
-Sim, o meu mestre permitiu que eu os buscasse. Ele fica a meio dia de viagem aqui a pé. Tenho ótimas montarias que nos farão chegar à metade desse tempo. O que posso falar sobre meu mestre e senhor... Digamos que todos o chamam por Homem Santo.
Seton olhou com raiva para Deenar.
-Que raios de nome estranho! Homem Santo?
-É um titulo que ele assumiu depois de certos eventos. Seu nome verdadeiro ninguém sabe. Os poucos que sabem, preferiram aceitar seu voto. Ele é o que chamaríamos de um herói sem nome.

Deenar tratou cada um dos heróis como pode. Contudo, entre eles havia uma dor tão grande em seus corpos que continuava a atormentá-los. Não paravam de se queixar. O clérigo anão disse que seu mestre poderia cuidar melhor de todos.
Foi perguntado se ele viu algum homem com roupas sacerdotais. Ele não cruzou com ninguém assim.
Ao deixarem finalmente a caverna, depararam com um bando de lobos grande. Eram fortes e, aparentemente, dóceis. Isso não acalmou os Dragões, até o servo do herói sem nome falar que eram suas montarias.
-Faz sentido! – falou Lacktum e concluiu – Quem usaria cavalos na neve!
-Então, subam neles. São filhos da montaria de meu mestre.
-Não seria mais correto chamá-los de crias? – perguntou Gustavo.
-Animais possuem almas. Não importava o que reis e sacerdotes digam nesses tempos conturbados. Portanto, trato eles como faria com outros anões.
Após isso, Gustavo ficou reflexivo.
Cada um dos aventureiros subiu em seu lobo montaria. Fortes e resistentes eles eram, além de um pouco maiores que um homem adulto grande.
Havia dez deles. O número preciso de homens ali.
Deenar olhou diretamente para Ulfgar. Fitou seus olhos como se procurasse algo. Por fim, falou:
-Você parece estar sendo afetado por um feitiço. Ou pelo menos teria sido?
-Acredito que eu fui alvo de uma magia ontem à noite. Dragar, o demônio que enfrentamos, soltou em mim um sortilégio. Consegui resistir...
-Não toque a chama – cortou Deenar.
-Como?
-Uma velha frase anã. Uma chama nos aquece, mas também pode nos ferir. Nunca devemos abandoná-la, visto que pode perder o controle. E em hipótese alguma devemos tocá-la. Usar ela contra os inimigos, nunca a utilizar contra os aliados e amigos. Acima de tudo mantenha isso em sua mente: nunca toque a chama.
-Entendo...
Enfim, eles montaram e começaram a se dirigir as colinas. Os corpos cheios de dor, mas com corações inundados de satisfação. O grupo havia salvado aquelas terras de Dragar. Só que com isso, um novo oponente surgiu no horizonte. Mal os heróis sabiam que aquele sacerdote era só o primeiro deles. Seu nome era Undor, sumo sacerdote de Loki.

Acima das ondas frias e sombrias do mar norte, surge duas figuras. Uma alada, poderosa e a outra diminuta em comparação ao seu aliado.
Um dragão com escamas negras. O outro um ogro com seu machado único. Daehim e Matadouro foram enviados até aquele território por Sinestro. Iriam eliminar os Dragões da Justiça. Sem nenhum impedimento.

Alcançaram as cavernas gélidas onde estaria o tal Homem Santo. Havia uma em especial ao qual Deenar pediu que entrasse após desmontar.
O lugar parecia não estar habitado por muito tempo. Só que o anão confirmava que o antigo membro dos Imortais Esquecidos estava lá. E a neve começava a atacar aquelas terras. Viram-se forçados a encarar um lugar completamente desconhecido.
Começaram a entrar cada vez mais naquele território. Parecia um pouco sinistro. Antes de entrar, notaram no chão uma espada mágica congelada, como se seu brilho ainda a mantivesse. Isso tudo, visto que ainda havia uma pequena aura arcana nela.
Algo que superava as magias antigas que conheciam.
O mago caminhava na frente junto ao sacerdote. Viu que o lugar havia sido moldado pelas mãos de um anão. Quase parecia a entrada de um castelo.
Nem pareciam estar em uma caverna com grandes pedaços de gelo no chão e no teto. O lugar era iluminado pelas luzes de magias antigas, mais simples. Brilhava com intensidade e poder por todo o lugar. Era possível ver tonéis de vinhos que respingavam nas pedras polidas. O odor de bebedeira ficava mais forte enquanto alcançavam o centro do salão.
Era possível notar um amontoado de peles. Todas de ursos. Abaixo delas cabelos negros juntos a uma barba grande e espessa. Forte, porém cheio de fúria por ser acordado, um homem se levantou daquele lugar.
Ali estava um Homem Santo.

O homem que usava pele de ursos se aproximou lenta e friamente de Deenar. Parecia furioso. Como quando seu coração é traído por uma pessoa amada. Quando um filho engana o pai em relação a algo que deixou te fazer. Era assim que o Homem  Santo parecia se sentir.
-O que traz até mim? Foi isso que Kalidor pediu que treinasse? Deixasse que morressem sob a neve.
Seton sentiu hálito de algo podre vindo da boca daquele homem. Foi então que perguntou:
-Bêbado assim como vai querer treinar alguém?
Virou-se para o rapaz cheio de fúria na voz, o tal bêbado.
-Cale a boca druida! Ou te mato partindo seu crânio com minhas mãos! Ou arrumando veneno de hidra! No sangue mata em pouco tempo. Quem sabe esfaquear... E retirar lentamente o seu coração...
Falava isso enquanto olhava sarcasticamente para o homem da foice. Lacktum tomou a frente.
-Não viemos confrontar o senhor Homem Santo. Pedimos somente que nos treine, já que Kalidor quer isso.
O bêbado quis matar o jovem de cabelos ruivos imediatamente. Ao invés isso, só caminhou na direção dos tonéis de vinho. Nesse mesmo instante, pegou uma caneca e a encheu com conteúdo fresco que passou das bordas. Ele havia lambido a mão cheia daquele doce líquido. Orgulho e honra, estavam distantes de seus modos. Pobre citado; alguns pensaram.
Lacktum enfureceu-se. Ele não estava realmente ligando para o mago ou qualquer um dos amigos de seu grupo. Como alguém assim poderia sido membro dos Imortais Esquecidos? Ele já conheceu o misterioso Kalidor Hein Hagen, o arcano louco – como alguns chamavam – Gibraltan D’asgard, o miltar Gor e o orgulhoso e selvagem, Galtran Coração Prateado. Mesmo aqueles seres imortais sendo considerados mais que um mito, aquele que estava na sua frente não parecia nada com um cavaleiro nobre, cheio de forças do passado. Alguém de renome ou famoso. Muito menos guardião de alguma riqueza ou tesouros. Era um amontoado de coisas ridículas e sem sentidos, mas um herói não era mais. Com suas atitudes iguais a de um derrotado, sua única amiga aparente era a bebida. De certo modo o arcano se sentiu como vendo um reflexo seu. Visto que o lembrava de si mesmo no começo daquelas viagens. Deveria ter sido só sua impressão. O teor de força e raiva que possuía lembrava um jovem Van Kristen de pelo menos oito meses atrás. O mesmo que atacou uma cruz usando uma magia de ataque.
E isso era algo que ele odiava com todas as forças.
-O que você quer? Esta triste por qual motivo? Acredita que o seu treino é indispensável para nós? Não sei o que Kalidor viu em você, mas pode ter certeza que ele deve ser cego! Há um mal lá fora crescendo como o bater de asas de um dragão. E eu seu do que falo. Sinestro esta para renascer e precisamos de todas as forças que combateram esse mal antigo. Se isso inclui você suposto Homem Santo, farei tudo que eu posso sem o seu auxilio. Isso mesmo homem imortal, cheio de força antiga – falava isso com sarcasmo – Não sei o que é você, mas juro que o adversário logo irá morrer. Aquele ser dracônico cairá pelas mãos de Van Kristem. Isso não vira de um covarde que nem nome possui.
O Homem Santo absorveu uma bela golada daquele vinho. Parecia ser delicioso. Enxugou a barba, que se encheu com aquela deliciosa bebida. Jogou a caneca de lado e confrontou o mago ruivo cheio de atitude.
-Você sabe quem eu sou? O que eu sou? Qual o meu verdadeiro nome? Ou o que aquela espada na entrada faz ali? Ou pior, quem foi que feriu a face por assim dizer, de Sinestro? Então não me provoque...
Lacktum acreditou que conseguiu seu intento. Ledo engano.
Uma espada sem aviso atravessou o peito do jovem Van Kristen. Cortou o manto, peles e carne. Jorrou sangue ainda mais que havia atingido o coração. Sua boca soltou mais do líquido vermelho o fazendo desfalecer diante da lâmina do suposto Homem Santo.
Todos os membros dos Dragões ficaram atônitos diante de tal ação. Foi quando o herói sem um nome disse:
-Fui eu que marquei o dragão enquanto ele ainda tinha pele de esmeralda. Eu e Galtran. Se pensar que me importo com as atitudes de um mero mortal, saiba estar completamente enganado. E me importo menos ainda com sua vida, mago cheio de prestidigitação. Agora, definhe sob a lâmina de minha espada.



[1] Mais um termo para elfo.
[2] Angaheru, deus das forjas e dos combates. Portador da Rosa dos Ventos e criador de toda a raça anã.

sábado, 4 de abril de 2015

(Parte 33) A besta

Imagem meramente ilustrativa.


Introduzimos aqui três personagens que tem seu próprio modo de agir e pensar. Todos viviam no norte gélido. Nem todos nasceram naquelas, porém. E nenhum deles descendia dali.
O líder era um anão. Como poucos de sua raça ele não imaginava de que direção descendia. Cada anão tem um vinculo de sangue com um dos clãs antigos. Cada um desses grupos possui um titulo referente a uma das direções da Rosa dos Ventos. Há uma lenda que diz serem os criadores da verdadeira Rosa dos Ventos, mas como uma enorme pedra preciosa.
Ulfgar era sua graça. Guerreiro experiente até. Poderoso e perigoso, mas que ainda treinava como sempre ressaltava. Seu rosto era bem coberto pela barba. Assim mesmo, pequenas cicatrizes eram vistas pela face do pequeno elemental da terra. Usava capuz e um martelo. Sendo raros aqueles que seguiam os passos do pai de tal maneira, se tornou um paladino de Thor. O pequeno martelo, presente do pai, tinha mais marcas do que o rosto, e era bem mais velho que seu atual portador. Ao menos em comparação a um anão. Sua barba como seus longos cabelos, eram dourados.
Já seu aliado era um elfo de nome Bahamunt. Bem magro e cheio de vida. Adorava falar. E sua aparência colaborava: belo, com cabelos loiros esvoaçantes, longos o bastante para fazer algumas tranças. O arco longo no peito feito de madeira humilde demonstrava ser resistente. Sua face não demonstrava, mas era quase um adolescente entre os sidhe, mesmo não parecendo.
Seu único e maior problema era a loucura. Muitos acreditavam até que fosse tomado pela lua, porém, talvez só tivesse caído no chão de cabeça quando criança. Ou até caído em uma poção mágica celta nos primeiros anos de vida. Seja lá como for ele soltava essas perolas. Cada uma pior que a outra...
Tudo compensado por sua destreza e presteza natural. Bom como os elfos e superior a eles na arquearia. Armado com seu simples arco, Bahamunt derrubava ogros desde que era uma criança. Seu dom natural o qualificaria a Ordem do Arco Místico. Nunca encontrou alguém desse seleto grupo, no entanto. Enquanto não o fazia, ele treinava como um louco. Ou mais.
Siegfried era o último. Humano e cheio de vida. Ele estava armado com uma espada bem mais longa que as comuns. Presente do pai. Estava cheia de falhas. Rachaduras e fragmentos, manchas de sangue e gordura. Era um legado.
Seu físico era extraordinário. Muito mais forte que qualquer homem do ocidente. Treinou desde cedo com armas e carregando pedras pesadas. Mesmo sendo bruto em aspectos físicos, desde cedo o guerreiro cultivou as gentilezas e cuidados dos nobres. Era um homem cheio das qualidades dos cavaleiros.
Com um passado cheio de cicatrizes, assim como seu corpo, Siegfried foi torturado como um escravo naquelas terras do norte. Ele e seu pai trabalhavam como mineradores em um lugar conhecido como Ribe, terra de horrores e tortura. O que sabia sobre estar ali era uma fuga de um lugar muito distante, quando ele ainda era uma criança de colo. Isso explicaria os modos de cavaleiro.
Nos últimos anos, Songard, pai de Siegfried, adoeceu misteriosamente. Dores horríveis por todo o corpo – mas especialmente – fazendo com que mais tarde tivesse ataques terríveis. Tempos depois o guerreiro descobriu que se tratava de uma doença rara chamada mal do catoblepas. Estranho que soube que era uma doença originária das terras gregas.
Tudo bem, pois agora Siegfried caçava uma cura ao seu pai. Moverias céus e terras por ela. E para tanto, matou um homem com as mãos nuas e lhe roubou suas armas. O que lhe fez se tornar um homem caçado em sua própria cidade.
Fugiu da região onde morava e levou seu pai até uma antiga área de mineração onde poderia o deixar seguro. Levou a espada dele, mesmo enferrujada como um símbolo, o lembrando de quem era. Jurou voltar e o salvar daquela maldição. Custasse sua vida ou sua alma, ou até mesmo os dois. Mesmo assim nunca acreditou em coisas como espírito.
Em suas buscas acabou conhecendo Ulfgar e Bahamunt. Com a intervenção dos sacerdotes do Deus-Cristo nas terras do norte, os serviços ficaram escassos. O que fez com que o destino unisse a todos, sendo que aceitaram o mesmo serviço de eliminar um bando de duendes em uma floresta. Não haviam se entendido inicialmente, mas o fato de descobrirem que o líder dos inimigos era um ogro os fez cooperar. Desde então os três se uniram em um grupo de guerreiros poderosos por aquela terra cheia de canções de gelo e fogo.

Os três estavam montados: dois em corcéis bem fortes e o mais baixo em um humilde pônei. O anão e o homem conversavam sobre a próxima aventura. Enquanto o louco elfo discutia com as nuvens. Era o que pensavam os outros dois.
-Bahamunt – soltou o humano – me diga... Com quem afinal fal?
O elfo, olhando com ar de raiva lhe disse:
-Lógico que não estou falando com ninguém! Dialogo comigo mesmo.
O anão bateu em seu rosto tentando segurar a raiva.
-Orelhudo de uma... Diga-me o que quer? Que eu use o meu martelo no seu crânio agora ou quando chegarmos à taverna mais próxima?
-Deuses! – respondeu extremamente ofendido contra o diminuto paladino – Não compreendem o que significa refletir? Sei muito bem o que significa isso. E, portanto o faço.
-Você vai é saber o que é a palma da minha mão! Pare de manha e loucura. E louco você não é. Pois não joga fora as moedas que possui. Move teu cavalo com mais rapidez, pois esta ficando para trás!
Siegfried apaziguou os ânimos.
-Ei! Todos calmos rapazes... Não se irritem, por favor. Já temos muito que enfrentar a nossa frente. Esqueceram?
-Você esta certo – se alegrou o elemental da terra – Me diga, o que fazemos exatamente por aqui?
            Estavam no litoral daquelas terras[1]. Muitos diriam que era o extremo norte do mundo. A vila costeira ao qual se dirigiam era alvo de ogros. Poderosos e perigoso, ao ponto de causar dano à torre de vigilância daquele local. Os guerreiros e homens saudáveis haviam viajado para caçar e só voltariam em duas semanas. Então mensagens e pedidos de socorro foram enviados aos vilarejos próximos. Era ai que o trio entra na história.
-Ogros! Adoro esmagar crânios de ogros! – falou eufórico o anão.
-Ogros? Detesto ogros... Urinam por todo o lugar e fedem a estrume de porcos – disse em contra resposta o elfo.
Quando notou que os dois iriam novamente brigar e discutir, Siegfried apaziguou a cólera de ambos:
-Parem já! Não importa se é bom esmagar crânios, ou muito menos se fedem a estrume, esta bem? O que importa é cumprirmos com a missão de eliminar aqueles seres.
-Esta bem Siegfried... Mas como o faremos? – questionou Ulfgar.
-Bem, soube que eles vivem em uma caverna próxima da vila. Talvez seja nosso ponto de partida. Mas há algo estranho... Não parecem as atitudes de ogros comuns. Talvez estejam sendo coordenados por uma inteligência maior.
-Como o que?
-Não sei. Mas iremos nos precaver.
-Muito sábio você é Siegfried. Para um homem mortal, digo.
-Nós humanos somos sábios quando nossas vidas estão em risco. Ou nossos bolsos.
-Sábio até demais – sorriu Ulfgar – Afinal, sem moedas, sem bebidas!
-Isso mesmo sábio e pequeno ser. Brindemos! – falou um alegre e festivo Bahamunt.
-Elfo... – novamente falou o anão em um de seus acessos de controle  - você esta segurando o vento. E não possuímos bebidas conosco.
-Como não? Veja – mostrando o ar ao redor de sua palma – um lindo odre.
-Veja! Um idiota sidhe!
Nesse momento, Siegfried parou a rusga entre os dois. Conseguia enxergar alguma coisa no horizonte.
-Os dois calados e façam suas montarias correrem. Não notam mais a frente aquele ser estranho cambaleando?
Falado isso, fez com que seu cavalo corresse com a velocidade de uma flecha disparada no ar. Mesmo sendo um homem que viveu entre os brutos do norte, sempre soube tirar o maior potencial dos animais. Em especial, de suas montarias. Talvez fosse mais um dom que o jovem Siegfried tinha.
-Eu notei! Óbvio que notei! – disse um elfo olhando para o vazio, já que Ulfgar também trotava na direção apontada pelo humano.
-Deuses nórdicos, em especial meu bom pai Thor, guiem meu martelo contra o mal e não o crânio dessa criatura de orelhas pontiagudas.
E fazia seu pônei disparar na mesma direção do aliado. Bahamunt antes de seguir a mesma direção, soltou:
-Será que Ulfgar também consegue te ver? Que ótimo isso seria, não é meu amigo?

Estava em Van Sirian de frente ao pai. Dwalin Van Kristen, extremamente forte e perigoso quando irritado ou ficava furioso. Seu filho, o jovem Lacktum , não era o que queria. Fraco, cheio de mimos. Nem parecia com o ancestral William. Maldição! Nem um de seus camponeses era tão fraco.
-Praga! Levante filho!
Era em um descampado. Longe do baronato. Mas ainda era possível ver a ponta de uma das torres. O lorde estava de pé com um galho de árvore como se fosse uma arma. Colocava de lado de uma maneira ameaçadora usando as duas mãos no item para provocar mais dano. E foi o que causou.
-Ai! – gritou o jovem e inapto Lacktum – Pai pode parar? Meu ombro arde e minhas mãos não conseguem segurar a arma. Dói demais!
Nesse mesmo instante, o guerreiro tinha um brilho negro em seus olhos. Misto de satisfação, por torturar alguém, com raiva, pelas frases de fraqueza do filho.
-Isso não é momento para fraquezas! Essa será sua vida! Quando meus ossos fraquejarem e seu corpo passar por varias estações, deverá ser um forte lorde. O povo de Van Sirian contará contigo! Sua espada será o que proteger os mais mansos. E para isso deverá ser feroz. Feroz como o lobo que é nosso brasão, Lacktum.
E então Lacktum  investiu contra o pai. Também portava um galho como arma.
Seus golpes eram curtos, fracos e lentos. Diferentes de quaisquer uns dos causados por Dwalin. Parecia que o pai atacava como a um inimigo de verdade. E então, em um momento de distração, o pai começou a enforcar o filho com o pedaço que tinha.
-Vamos! Liberte-se! Liberte-se futuro barão dos Van Kristen!
A espada de madeira improvisada bloqueava completamente a respiração de Lacktum. Pouco a pouco o garoto de cabelos ruivos perdia a luta contra o terrível mentor. Seus braços e pernas não tinham mais firmeza. Os olhos se fechavam.
Antes que isso ocorresse, Dwalin jogou o filho contra um tronco podre. Em seguida, visivelmente descontente, tomou um belo gole de um odre que trouxera.
-Este é o futuro dos Van Kristen! O herdeiro de William! O primogênito de uma família tão nobre... Estaria mais bem servido com sua irmã. Ela possui mais força que você.
O jovem Lacktum se irritou jogando a madeira contra o chão. Seu rosto estava vermelho e sujo. O tom escarlate poderia ser pelos golpes sofridos dos abusos físicos no treino ou pela raiva de seu jovem coração. O que importava mesmo para ele, na verdade, era o ódio que seu pai plantou em sua alma.
-Cale a boca!
Nunca antes aquele garoto havia levantado a voz contra o pai. E aquele momento ficaria marcado na alma de ambos.
-Você finge ser meu pai, mas seus atos lembram os de um monstro, como aqueles contos que minha mãe falava. Nunca vi um homem gritar ou espancar tanto um filho como você a mim. Nem os camponeses que te servem fazem isso! Deveria me conceder amor.
Em um impulso único, Dwalin golpeou o rosto do filho com um dos punhos. O som foi tão forte que o som desse ato assustou as aves que dormiam nas árvores. Os olhos do garoto tremeram antes de chorar encarando o pai novamente, caído de joelhos.
-Tire as calças e entregue a sua irmã. Ela é mais homem que você.
Lacktum cerrou os dentes e fugiu da presença do pai. O barão iria se movimentar, até que refletiu e decidiu que não valia o esforço. Era visível em sua face.
A mãe e a irmã do jovem surgiam do outro lado do descampado, quando viram o mesmo corre para a floresta. Iriam o deter, mas impedidas pelo patriarca Van Kristen, nada fizeram. O garoto cobria seu rosto lamentável com o braço esquerdo.

O garoto corria ligeiro como uma corça em fuga. Sua cabeça estava cheia de duvidas, pensamentos nublados, espírito confuso. Ele queria ser digno do pai, mas não era forte. Nunca seria. Nunca seria. Como era possível vencer do mesmo que o pai, um guerreiro? Um cavaleiro de tamanha força, poder único... Ah! Ele nunca seria como o barão de Van Kristen.
Sua raiva deveria ser contra o pai, mas aquilo que falou era da boca pra fora. Tinha raiva de si mesmo. Ficava com ódio de sua fraqueza, ou até de sua baixa força de vontade. Maldito tenha sido o destino que usa as pessoas tão fracas para seus desígnios, pensava ele. Com ser o que seu pai queria?
Ele encontrou um poço. O mesmo em que se escondia nos dias das surras e castigos. Sabia que seria como antes, mas fugia assim mesmo. Apanharia um momento ou outro, mas ao menos estaria a salvo naquele lugar. Seu pequeno lugar secreto. Um  refugio encantado. O poço dos desejos como chamava.
Tudo lá dentro parecia possível. Os sonhos mais fantásticos, as viagens mais mirabolantes, os confrontos mais mirabolantes, os confrontos épicos que obteve. Tudo em sua cabeça. Mas ao menos para isso servia; esquecer dos golpes que sofreu do pai. E da omissão da mãe. A pobre coitada nada poderia fazer a não ser tratar das feridas do primogênito. A mulher sempre possuiu o papel secundário dentro da sociedade. E com a senhora Van Kristen não era diferente. Submissa e fraca.
Certa vez, o jovem Lacktum acreditou ter visto uma fada ver voado entre as pedras do poço.
Desceu com cuidado os blocos que formavam quase uma escadaria natural. O fundo dele estava sem água nenhuma, porém, ainda úmido. Nem se importava. Preferia o frio daquele lugar ao calor obtido com as pancadas do pai. Para onde mais iria? Quem acolheria o menino fugitivo de um feudo?Ficou sentado e encolhido.
-Olá! O que faz ai mestre?
Lacktum ouviu uma voz surgindo do alto. Lá viu uma silhueta cinzenta e uma luz que parecia vir dos olhos dela. Desceu até o lugar onde estava o jovem Van Kristen viu quem era o sujeito. Um rapazote de treze anos vestido com roupa bem leve e que tinha cabelos castanhos que pareciam com os de seu pai. Apesar de humilde era bem apessoado e bem vestido.
-Jovem mestre, o que faz aqui? Todo sujo e nesse pequeno lamaçal?
O jovem Lacktum se levanta:
-Eu sou um dos Van Kristen. Sou seu superior. Não sabe quem eu sou?
O estranho achou esquisito:
-Mas mestre, já sabia quem era antes de descer o poço. Além disso, o senhor mesmo disse antes de me fazer a pergunta.
O primogênito se sentiu incomodado. Errou de maneira terrível o modo de falar e agir. Quando notou isso, desatou a chorar.
-Se acalme jovem mestre – falava isso enquanto o abraçava. Era estranho ter aquele desconhecido sendo tão afetuoso com ele. Mais do que seu pai pelo menos. Jamais se lembrou de um momento de afeto do barão de Van Sirian. Carinho vindo de Dwalin era algo raro como encontrar pérolas em um deserto.
Os dois sentaram no fundo do poço.
Lacktum olhava para o desconhecido com ar de curiosidade.
-Então, me diga o que lhe aflige? O que lhe causa dor jovem mestre?
Com o olhar do garoto sem nome, o herdeiro de cabelos vermelhos começou a falar:
-Meu pai não gosta de mim. Espanca-me, me maltrata. Sempre...
O jovem de cabelos castanhos olhava a face do futuro herdeiro do feudo cheio de compaixão. Mas como ele poderia agir tão piedosamente com um garoto que mal conhecia?
-Seu pai deve ter muito que pensar jovem mestre. E quer que o seu futuro esteja assegurado. Diga-me, quer ver um truque de magia? Como o das fadas?
De modo bem infantil, Lacktum bateu palmas de modo a afirmar o que pensava. Ele queria ver uma mágica.
-Pois veja! That arise with its fairy lights.
Enquanto falava isso, ele contorcia as mãos. Cada vez que mexia com elas, um brilho diferente surgia. Roxas, azuis, amarelas...  Tons de cores tão diferentes, que alguns, Lacktum nunca havia visto. Belas para ele. Como as luzes de uma fada.
-Parecem faerie[2].
-Jovem mestre, já ouviu falar da história das caudas das fadas?
-E fadas têm cauda?
-Exatamente! – soltou o desconhecido, brincando – Será que tem cauda?
Os dois riram da bobagem que discutiam. Para que arranjar caudas para fadas? Eram duas crianças rindo de coisas sem sentido.
-Camponês qual o seu nome?
-Ora, jovem mestre. Chamo-me...
E de repente Lacktum desperta.

Levantou um pouco a cabeça. Abriu lentamente os olhos, cheios de areia. Do mar e do sono. Parece que Senhor dos Sonhos brincou demais com ele. Os olhos se abriam lentamente, cheios de feridas, mas que cicatrizavam. Foi o que notou em segundo momento. Primeiro, Lacktum notou um corpo em do seu, uma boca na sua. Quando reparou, ela parou de beijá-lo. Parecia a sombra de um anjo como os cristãos falavam. A sombra de Lirah.
-Lugar ao’Céu? Estou no Céu? Veio me buscar?
-Desculpe mortal, mas não sou quem pensa.
Nesse momento, o encanto se quebrou. A mulher que estava sobre ele era linda. Não era Lirah.
-Ai! Perdão senhorita. Eu não queria lhe ofender. Pensei ser outra pessoa...
Quando notou, viu que ela estava nua. Nua em pelo, literalmente. Lacktum se levantou com rapidez com a vergonha que sentiu.
Vendo onde estava que parecia ser uma praia das terras nórdicas, notou que enfim teria chegado ao seu objetivo. Fosse ele qual fosse. Mas naquele momento procurava cobrir as partes intimas da moça. Tão bela por sinal. Não devia pensar sobre isso. Nem fita-la por ser tão bela. Aquela linda moça. Concentre-se Lacktum, pensava.
Encontrou um pano que usou para cobrir a jovem, enquanto, finalmente notava o quanto estava encharcado.
-Mas quem é você? O que faz aqui? Foi você que me salvou?
-Meu nome não interessa...
-Como assim não interessa?
-Não interessa.
-Não interessa? Não interessa. Veja se tem cabimento...
-Só estou aqui, pois vim lhe salvar.
-Como assim? E o que foi aquele beijo? Você me beijou, eu sei!
-Eu estava lhe curando.
-Ah sim! – pensou ele rapidamente – Beijo bom... Digo... Esqueça!
Fui mandada por um arcano que usou magia ancestral. Seu corpo estava na mais funda água do mar que pertence às terras do norte.  Foi usado um tratado mágico entre Njord e Poseidon. E com isso fui conjurada no último segundo para salvar sua vida. O que foi?
Lacktum ainda estava atordoado com a beleza da jovem. Começava a voltar a si. Alguém o salvou? Com uma magia ancestral? Poderia ser Nico ou Azerov. E Lacktum queria que fosse o segundo. Um dos motivos é o que significaria o mago estar vivo. O outro é que seria mais fácil convencer um mago a usar magia antiga para salvar a vida do que um dragão! Afinal, eles tinham que ser precavidos quando a isso. Em sua mente, porém, fantasiava que por algum milagre o velho amigo estivesse vivo. Aquele caduco.
-Muito grato... Moça... Nua...
-Ora, não foi nada Lacktum da profecia.
-Ah, sim... Como? – soltou de maneira quase cômica o mago.
-Desculpe, falei demais – e colocou a mão sobre a boca.
Ela começou a correr em direção do mar. As pernas balançando com graça. Notou como era diferente de Lirah: loira, linda, alta e muito mais branca. Nunca deve ter pegado no trabalho pesado como a camponesa que um dia foi sua noiva.
Sem nem sequer se despedir, mergulhou nas águas frias do mar. Caminhou cambaleante na direção para onde ela foi.
-Ei! Moça vai morrer de frio!
-Stranger! – ouviu alguém gritar.
Quando olhou para o lado, um cavaleiro surgiu montado.
-Sabe falar o idioma das terras do rei ??? ?
-Ora, se sei! Mas quem é você estrangeiro?
Tentando se arrumar um pouco disse:
-Sou Lacktum... Lacktum Van Kristen. Sobrevivi a um naufrágio e aquela moça foi...
Nisso, quando apontou na direção do mar onde a garota mergulhou , deve uma surpresa. Notou que entre as ondas estava a moça, flutuando naquelas águas. O que causou o espanto é que parecia surgir em suas costas nadadeiras de um enorme peixe. Reluzindo como diamante. Ela acenou e sumiu naquele oceano.
-Ela me ajudou... Meu poderoso Odin! Realmente não era um anjo com a forma de Lirah no fim das contas. Mas uma sereia! Uma doce sereia – voltou-se então para o homem do norte e seu cavalo – Desculpe, quem é você?
O homem estranhou a atitude do rapaz com cabelos vermelhos. Ele agia com muita naturalidade diante do surgimento da sereia. O rosto do cavaleiro já parecia bem mais atônito diante daquilo.
-Ah, bem... Meu nome é Siegfried.
Esticando a mão, o mago segurou firmemente a do guerreiro dizendo:
-Meu nome é Lacktum Van Kristen. Arcano inglês. Líder de um grupo de aventureiros chamados Dragões da Justiça. Onde estamos? Digo, onde estou?
De repente, surgiam os outros companheiros de Siegfried. Cada um em sua respectiva montaria. Tentavam entender a cara de espanto de seu colega.

Foi apresentado aos outros membros do grupo: Bahamunt, o elfo arqueiro e Ulfgar, o anão paladino. Depois te explicado o que ocorreu consigo, Lacktum perguntou se eles poderiam o levar a vila mais próxima. Disseram prontamente que sim, visto que também eram aventureiros e precisavam chegar até aquele lugar. Pensou que eles o tratariam como um louco completo, mas o tratavam com relativa naturalidade. Em especial Siegfried que insistia que havia visto uma mulher metade peixe.
A manhã e a tarde, passaram com relativa facilidade enquanto cavalgavam em direção da vila. Siegfried levava o Van Kristen em seu corcel. Decidiram acampar, mesmo não estando tão longe de seu objetivo. Era mais seguro por enquanto.
Acenderam uma bela e ardente fogueira com a finalidade de aquecê-los – especialmente Lacktum, o naufrago – e comer. O guerreiro humano aproveitou para comentar o que o fez se emprenhar nessa vida de aventureiro.
Logo em seguida foram Ulfgar e Bahamunt que falaram sobre seus passados. O anão foi mais sucinto e resumido. Já o elfo falava sobre loucuras e pandemônios que só ele acreditava.
O paladino que possuía um pouco mais noventa anos, falou que quando sua barba não alcançava nem seu pescoço completamente, teria vindo junto com pai até aquelas terras gélidas. Seu nome era Iohan e trazia consigo um artefato conhecido como Martelo da Rosa. Segundo seu progenitor, era um dos artefatos mais poderoso da Era Mítica. Alto sacerdote da ordem de Thor, esse item teria sido forjado por Odin. Ele o fez, de modo que honrasse entre os anões o laço entre as divindades nórdicas e seus mais fieis súditos. Porém, o destino quis que houvesse entre elfos e os bravos elementais da terra o que chamariam de Guerra do Arco e do Machado. Temeroso que o conflito se estendesse entre Arcádia e Midgard – visto que Avalon já havia se tornado o principal inimigo dos anões – os sacerdotes do Filho Preferido de Odin, levariam o objeto único para uma fortaleza nas terras do norte. O nome dela era Barad-Strongor, também usada como um templo e lugar de paz para as crenças anãs. Nunca foi invadida e ficava no território onde nem os Senhores do Escudo conseguiam ter acesso, sem antes ter permissão do alto clero. O lugar era um segredo desse povo nobre, tanto que nenhum mortal teria encontrado aquele lugar nos séculos após sua construção. Mesmo que em uma ironia do destino, algum ser encontrasse o caminho para aquela região, jamais penetraria a muralha de metal antigo usado por tão brava raça. Nem foi preciso, já que eles nunca alcançariam seu objetivo. O grupo dos dignos seguidores Do Que Traz Os Trovões foi atacado por um perigoso grupo de saqueadores ogros. Foi o destino? Uma emboscada? Uma força divina em ação? Quem saberia? De qualquer forma, o sumo sacerdote sacrificou sua vida pedindo ao filho que fugisse e que cuidasse do martelo. Porém, nunca havia visto o item e nunca encontrou ou ouviu falar rumores sobre ele mais. Talvez se conseguisse mais poder, obteria o conhecimento sobre o que tanto desejava. Era o que pensou.
Já Bahamunt tinha uma história louca, para não falar no mínimo fantasiosa. Ele falava que quando criança seus pais teriam sido traídos e mortos devido a Guerra do Arco e do Machado. Foram enganados por alguém que confiavam. Antes de morrer, seus pais amaldiçoaram o culpado de sua queda. Ele teria se tornado um monstro tão horrendo, que sua aparência tenebrosa era do tamanho da maior montanha que já existiu.
-Diga-me, elfo com história de vida tão excêntrica – falou comtom sarcástico Lacktum, como só ele fazia – como nunca vi... Ou ouvi falar sobre semelhante criatura nefasta? Sabendo que ela é um verdadeiro... Colosso?
-Entendo o ceticismo – respondeu o elfo – Mas acredite, o monstro traidor obteve uma máscara do deus da trapaça. E ela é grande o bastante para conseguir nos enganar.
-Por todos os deuses de Asgard! – gritou inconformado Ulfgar – Cale essa maldita bocarra! Eu ainda quebro sua cabeça com orelha pontuda e tudo. Nem um objeto seria grande o bastante para cobrir suas loucuras sem pé nem cabeça. Nem com toda a força da Arte.
Siegfried e Lacktum riram da velha rixa entre elfos e anões. Viram, que diferente dos elfos de Avalon ou dos anões que servem aos Senhores do Escudo. Eles não tinham sido corrompidos pela guerra entre as raças. Então não possuem o ódio. O preconceito não existia entre os seres mágicos do norte.
Os três falaram então sobre a missão na vila. O caso dos ogros e como estariam muito bem preparados para atacar os homens e mulheres daquela região. Lacktum concordou com a idéia que uma inteligência maior estava agindo.
-Nunca teriam sido tão coordenados se fosse realmente um ogro. O líder deve ser alguma outra coisa. Algo mais perigoso.
-Imagina alguma coisa arcana? – disse o anão paladino.
-Seres mais inteligentes que os ogros existem aos montes – disse rindo Lacktum – Mas mais poderosos também. A quantidade é infinita. O que esta lá é qualquer coisa que podemos imaginar. Desde o mais profano até o mais mundano.
O elfo e o humano ficaram pensativos. Já o anão ajeitou a barba junto da barriga. Olhou fixamente o mago e disse:
-Seus olhos estão cheios de conhecimento do profano. Parece entender sobre o norte, mas também sabe sobre seres malignos. Já entregou sua alma a algum ser das trevas? Ou sua carne?
Lacktum levantou como um sopro. Ao invés de raiva, continha um pouco de paciência.
-Não rapaz, até pensei sobre isso. Achei, no entanto, que demônios não me aturariam.
Inicialmente os três se espantaram. E todo esse aspecto sumiu com as risadas de Ulfgar. Cheias de bom humor. O mago soltou um largo sorriso. Parecia uma conversa com Halphy ou Azerov. Só imaginou naquele momento onde estaria a jovem ladina? Como ela pode abandonar todos em tão conturbado período? Ela, que começava a fazer parte da história e dos corações daquele grupo. O amor que ela jogou ao vento.
Agora, não era momento para isso. Os Dragões. Estariam bem? Esse era o problema agora.
-Ah, você disse ter caído de um navio? Fiquei sabendo de um grupo de náufragos que surgiu na vila para onde estamos indo.

Após cavalgarem um bom tempo, alcançaram a vila no dia seguinte. Todos já notaram como o lugar estava. Devastada pelos golpes de um imenso tacape. Casas partidas ao meio. Corpos destroçados e pessoas as recolhendo. Algo podre e sujo surgia naquele lugar.
A vila ficava em uma colina. E suas ruas eram facilmente atingidas pelos monstros, constatou o grupo. Era algo parecido com o que fizeram na torre de Azerov. Dessa vez, pensou Lacktum, seria contra ele a tática.
O dia estava nublado e uma chuva fraca castigava a cidade. Clima forte de medo e terror nos homens e mulheres daquele lugar. Cada rosto uma tristeza, cada olhar um pedido de ajuda. O mago se lembrou de Starten e da vila próxima a cabana de Iliana. Os mesmos olhares e lamentos. Quando não havia um líder em certa localidade, ou quando este não era forte causava dor e desgraça a todos. Isso servia desde uma vila a um grande reino.
E quantas vezes os lideres partem e abandonam os mais humildes a sua própria sorte? O rei Luis da França e o imperador Conrado partiram para as cruzadas. Deixando assim, seus territórios desprotegidos. A mente de um homem deve ser voltada para aqueles que devem ser protegido, nunca para si. Mesmo quando isso pode lhe custar a vida. Aprendeu isso com o exemplo de Azerov.
Um líder. Sendo rei ou não, deve viver para os outros.
Duas crianças passaram pelo grupo. Uma delas brincou com os cabelos do guerreiro sagrado, enquanto a outra comentava o quanto ele era baixo. Era engraçado. Mesmo assim, o grupo continuou seu caminho.
Alcançaram a casa da velha. Líder ela não era. Digamos que uma conselheira. Ela conseguia ler as runas. O famoso oráculo dos nórdicos. Através dele era possível ver o futuro e o passado. Através disso, muitos acreditavam controlar o presente. Só os sábios sabiam, mas isso não significa nada. Deuses e mortais jamais controlarão os destino, portanto, nunca fariam a façanha de dominar o hoje.
A casa mais parecia uma barraca improvisada, se comparada a qualquer outra na vila. Simples, fraca e feita com madeira podre. Remendos no telhado eram feitos com panos e palha. A porta estava cheia de periaptos: ossos de animais como pássaros e ratos, dentes de homens, presas estranhas, olhos humanos, penas, pernas de sapos, pelos de animais e toda a sorte de coisas bizarras. O chão era cheio de sujeira, pois às vezes toda a sorte daqueles objetos caia da entrada. Siegfried notou uma espinha de peixe no chão. Só não sabia se era de encantamento ou de uma refeição. O que foi um problema, já que Bahamunt estava com fome e os outros não queriam desrespeitar a líder religiosa do lugar.
-Pare de brincadeiras – cochichou Ulfgar ao elfo.
-Eu não disse nada!
-Vi sua língua cheia de água olhando aquela espinha e outras coisas... Seu louco!
Havia alguns curiosos próximos da tenda. Olhavam com medo e assombramento. Temores tinham, pois estavam com receio que alguém atacasse a vila. O assombramento já era por conta das aparências dos desconhecidos que entraram naquela localidade. Sabiam distingui um humano, um elfo e um anão. Além de notar quem mexia com magia. Fazendo Lacktum ser o centro das atenções.
Uma moça surgiu ao lado da velha. Declarou se chamar Hilde e iria ajudar a idosa.
Os membros com mais voz dentro daquele grupo recém formado foram a frente. Ulfgar e Lacktum se mostravam imponentes. O anão começou:
-Viemos ajudar a vila. No que quiserem.
-A senhora esta encarregada de liderar a vila, certo? No lugar do guerreiro mais poderoso desse lugar? – disse um mago com certo receio. Ele fitava muito o semblante da idosa. Dois ou quatro pares de dentes na boca. Sua testa cheia de entradas. Mesmo assim, lembrava tanto o rosto de uma avó. Algumas vezes serenas outras nem tanto. Naquele instante, ela estava calma. Sorria com uma expressão amarelada.
-Hum, Arte, espada, martelo e arco. Junto nas terras do norte.
-O que ela quer disser? – perguntou o guerreiro Siegfried.
-Ela se refere a vocês quatro. Encontraram-se aqui? – disse Hilde.
-Sim – quando Bahamunt iria continuar um comentário sobre Lacktum, este mesmo fez um gesto que se calasse. Não queria que outros notassem que era um inglês.
-O arcano trará magia para os três brutos. Seus fios foram entrelaçados por uma das irmãs do destino. Jornada surge para vocês... Longínqua.
Os quatros se entreolharam com expressões de curiosidade. Ficavam pensando se não era um mero truque da velha. É o que os menos simplórios pensariam. Porém, ela continuou:
-Você de cabelos vermelhos, traz consigo conflitos. Raiva, ódio, amor, pena entre outras coisas... Mas não sente isso por quem imagina agora. Quando notar, sua mente chegará a um patamar que desejará nunca ter alcançado...
Aquela mulher idosa fez com que o arcano enlouquecesse. Ele sentia que suas palavras estavam cheias de poder. Falou ao coração de um Lacktum sem rancor. Que desapareceu há tanto tempo. A pessoa em quem pensava era Lucian, que assumiu o título de Kalic Benton II. Se não fosse por ele que sentia tudo aquilo, seria por quem? Sua mente se enchia de dúvidas.
Ela olhou para o arqueiro.
-Você tem passado. Seu manto de loucura protege sua mente de um passado mais sinistro. Prepare-se! Ele voltará até ti elfo, com a flecha iluminada que derrota quatro espadas.
-Obrigado velha louca com poucos dentes – respondeu ele a altura.
Ela, apoiada em Hilde, se virou para Siegfried. Começou a profetizar com as mãos tremendo:
-Guerreiro, teu símbolo é um grifo. E um grifo. Saberá o motivo de seu exílio forçado. Pois seu sangue te condena.
Mais um homem confuso.
Então, o último, anão de nome Ulfgar. Ele ficou com medo de tudo aquilo. Qual não foi sua surpresa quando a idosa se ajoelhou diante dele? E continuou falando:
-Quando tudo passar, a tempestade que esta por vir, muitos farão a mesma coisa. Pois alcançara seu objetivo.
Ele ficou honrado, pensando que encontraria o item que tanto almeja. Mal sabia que ela teria visto outra coisa.
Velhas como ela eram comuns nos séculos antes do ano mil recebiam das normas o poder de vislumbrar o futuro. Com o surgimento do cristianismo, foram caçadas e mortas. Como meras e ridículas bruxas horrendas. Não como mulheres de cura ou sabedoria, mas sim como monstros terríveis. Assim como as sibilas gregas e as feiticeiras celtas. O mal perpetrado pelos homens que seguiam o Deus Cristo era imenso. Tudo em nome de sua divindade. Muitas pessoas causam massacre em nome do que se acredita. Mesmo que isso vá contra os seus próprios princípios.
Vocês se perguntam, se tinham esse poder de vislumbrar do passado, presente e futuro – Skuld, Verdandi e Urd – como não impediam suas próprias mortes? O terrível massacre em nome de Deus? Simples. Quando é momento de partir, não há nada que o impeça.
A idosa, apoiada por Hilde, levou a mão ao peito. Ela notava com risos os olhares entre Siegfried e a moça. Já sabia o que iria ocorrer entre eles. Não é horrível quando existem pessoas que sabem nosso futuro e nunca nos falam?
Já a jovem ajudou à senhora a entrar, enquanto essa soltava risadas cheias de malicias. A garota se virou uma vez mais para o grupo. Em especial para Siegfried. Depois de ajudar a mulher das runas, voltou até eles.
-Vieram para cá devido o ataque dos ogros? Mostrarei o caminho.
-Muito grato – falou Siegfried prontamente.
Ulfgar olhou para Lacktum. Como é engraçado que os apaixonados nunca notam seu próprio amor.

O grupo dos quatros aventureiros foi levado a uma parte mais elevada. Antes de lá chegar, Hilde comentou que outros como eles, haviam chegado naquele lugar. Eles deixaram alguns marinheiros no templo. Depois, partiram. Um deles tinha um X na cabeça.
-Thror! – gritou de satisfação Lacktum.
Ao que parece os ogros viviam um pouco afastados em uma caverna. Sua entrada era tapada por uma enorme pedra. Pelo menos assim que era antigamente.
Algum tempo atrás, um grupo de evangelizadores católicos tentou destruir os símbolos dos deuses pagãos. Além de atacar o templo na cidade, souberam de uma pedra que tinha símbolos, segundo eles, profanos. Mas o que realmente era maligno nunca foi à pedra, e sim o conteúdo. Partiram os símbolos nas pedras. Desde então, não se ouviu falar dos cristãos.
Hilde pesquisou lendas antigas. Descobriu que ali era o covil de Dragar, o Venenoso. Um demônio ardiloso que serviu a Loki, deus da trapaça, O Que Traz Ragnarok. Seus poderes são originários – assim como ele mesmo – do reino de Jotunheim. Os seus poderes eram grandes e temíveis pelos que as lendas contam. Relatam sobre forças demoníacas que só ele controlava. Contos de traição são falados.
O mago preparava as magias. Enquanto isso, o guerreiro Siegfried se despedia de Hilde. Lacktum invejava aqueles momentos entre os dois. Lembrava-se como ele conheceu Lirah.
Era uma manhã de primavera no lugar onde morava. Estava chovendo forte, quando o jovem líder do baronato se viu encurralado pela água debaixo de uma grande macieira. Bem maior que as normais. Lá estava à bela e jovem, Lirah. Ensopada assim como o primogênito dos Van Kristen ela comia uma maçã vermelha como sangue. Depois de conversas sem sentido, eles começaram a se olhar de forma única. Quando se observa a pérola mais linda, um lugar ao céu, qualquer coisa que enchia a alma.
Finalmente, o guerreiro olhava fixamente na direção para onde ela partiu. Nunca sentirá aquilo antes. Sabia que parecia amor, mas não como sentiu antes. Era novo. Não lembrava o que sentia pelo pai, nem a amizade dos companheiros. Um sentimento único.
Ele esqueceu aquilo por alguns instantes e se lembrou de que estava mais uma vez naquela dança macabra. Se a vida virou um circo romano ele estaria ali sempre para lutar.
Então lá estavam eles: Ulfgar, paladino anão servo de Thor; Siegfried, guerreiro humano; Bahamunt, arqueiro elfo louco; e Lacktum Van Kristen, mago e que trilhava o caminho do Destino. Todos com suas devidas armas. Magia, espada, arco e martelo.
Siegfried seguia mais a frente. Como bom rastreador que era notou pegadas de gêneros bem diferentes. Entre elas estavam as de ogros. Acima delas, ficavam as de homens, que com certeza pertenciam aos Dragões da Justiça.
Quando caminhavam mais a frente, Bahamunt observou que havia corpos caídos no chão. Como os olhos de um elfo são mais poderosos dos que de qualquer mortal, Ulfgar acreditou no companheiro louco. Pois eles nem treinam essa habilidade natural, só a usam.
Mesmo possuindo a confirmação de que os corpos eram de ogros, Lacktum se colocou receioso. Criaturas grandes que poderiam ser abatidas pelas armas de seu grupo. Só que um ser com os poderes profanos adequados poderia usar necromância para reanimá-los. Um perigo que não queria correr.
Chegaram próximo a caverna. Nela, havia uma pedra cheia de símbolos aos quais já aguçaram os instintos do mago. Os mortos estavam jogados ao chão. Um, possuía poderosos golpes no pescoço e barriga. Outro tinha o que Ulfgar e Lacktum notaram serem golpes de uma foice e espada. Era coisa dos Dragões.
Tirando armaduras de qualidade baixa, parecia que os outros haviam feitos seus espólios de guerra. Notou que ali tinha moedas desperdiçadas no chão. Com certeza o guerreiro Thror fez esse ato, pensaria o mago mais tarde.
Os três guerreiros visualizavam os corpos, quando Lacktum notou o que simbolizava aquelas marcas. Chamo os três para comunicar seus novos companheiros.
-O que foi? – perguntou Ulfgar.
-Aqui foi escrito... Aqui jaz Dragar, a Serpente de Loki. Aquele que Traz a Traição. Temos aqui um demônio manipulador. Ele controla a altera as emoções. Cuidado com elas.

Enquanto isso no templo daquela vila por onde passaram, um homem que seguia os deuses dos gregos chegou as suas portas. Seu nome é Tom Drake Harem. Um clérigo que já foi citado nesses textos. Homem que busca sua identidade. Entra em questão, por qual motivo ele chegou naquelas terras.
Simples! Um acaso do destino.
Certo dia, em um pouco mais de um mês atrás, Tom estava em um porto na França. Ironicamente, a pedra que carrega, voou na direção da cabeça de um marinheiro furioso quando tentou se livrar mais uma vez dela. Este golpeou o clérigo com tamanha força que o nocauteou. Pego desacordado, e jogado em um navio, inicialmente como escravo, o grego adorador de Zeus, se tornou poderoso dentro da embarcação e respeitado. Sem saber, foi levado para o norte. Chegando naquelas terras dos antigos vikings, ficou sabendo dos problemas.
Como bom moço e amigo por excelência, ele foi em direção da vila quando ficou sabendo. Na verdade, estava certo que venceria qualquer desafio. Pois estava protegido por Zeus.
 O templo, que já foi território do panteão nórdico, possuía estatuas e escritos dos cristãos. Obras que simulavam anjos e santos. Abaixo das imagens, estavam as formas de madeira do que já foram os símbolos de Asgard, lar dos deuses Aesires e Vanires. Todos quebrados ou partidos, sendo que alguns eram feitos de madeira. Uma afronta as antigas divindades daqueles povos. Era assim que os homens do Deus Cristo agiam.
Aquele lugar nem servia para rezar mais. Na verdade servia como casa de cura. Entre outras coisas.
Os atacados pelos ogros estavam completamente física, mental e espiritualmente, exauridos. Alguns rezavam, confundindo suas preces com as dos dois panteões: cristão e nórdico. Outros gritavam com as dores dos membros, olhos ou órgão arrancados. Os piores eram aqueles que alucinavam falando que os ogros tinham aspectos diabólicos, ou até pior, que eram demônios mesmo. O que ocorreu ali era um massacre.
Enquanto caminhava entre os bancos, que serviam como camas improvisadas aos feridos, Tom notava que cada um era atendido de forma individual. E com pouca higiene salientou em sua mente.
Viu que seus dons eram mais que necessários e começou com os milagres:
-Ο Δίας, κομιστή της αστραπής, ένας από τους μεγάλους αυτοκράτορες των ανδρών. Αφαιρεί όλο τον πόνο των εν λόγω φορέων και θεραπεύει το όπλο σας με τον πόνο στις καρδιές αυτών των ανδρών και των γυναικών.
No mesmo ato, um brilho na palma da mão do clérigo surgiu. Era uma força com poder de balsamo. Um fio aparecia cada vez que ele se aproximava de um ferido. E da ponta dele surgia o raio de cura. Fazendo o corpo aliviar. Esqueciam os sofrimentos.
Enquanto isso ocorria, uma roda de espectadores olhava cada gesto do jovem estrangeiro. Entre uma cura outra, ele falava como seu deus era bom, seus milagres, suas façanhas. O poder sobre as forças elementais que estavam no céu. E foi ai que as discussões começaram.
Tom falava de um deus que era líder do seu próprio panteão e que controlava raios como uma lança. Para os homens e mulheres do norte que ainda preservavam os antigos costumes, ele se referia ao portador de Mjolnir, Thor. E com isso, mesmo agradecidos pelo que o sacerdote fez muitos repudiaram ele. Sem falar naqueles que eram cristãos.
Uma moça, entretanto, pareceu interessada naquelas palavras. Seu nome era Valquíria. Assim como muitos naquelas terras, perdeu os pais devido a uma grave doença. Cuidou-se sempre sozinha, trabalhando com o que podia. Sempre de forma honesta.
E quando viu aquele homem de terras distantes, acreditou que talvez fosse o momento para partir dali. Talvez, conseguir se tornar alguém melhor, ou pelo menos conhecer o mundo. Terras vastas, nunca exploradas. Lugares onde a terra era quente e o vento cortava sua face. Sabia que enfrentaria perigos, já que fazia parte de obter o que se quer. Só se tem o que se quer quando se sacrifica algo de igual valor. Ela estava certa em fazer isso.
A jovem se aproximou com receio, depois, ignorou o próprio medo. Nem ela sabia, que com ele. Entraria em um novo universo de magias fantásticas. Perigoso.
-Olá... Tom não é?
Ele se virou na direção do clérigo. Os dois se examinavam com cuidado, em cada detalhe.
A jovem tinha cabelos castanhos claros e sobrancelhas grossas, mas ainda bonitas. Algumas peles bem finas surradas cobriam a parte de cima do corpo. Para baixo, um saiote negro com detalhes em cinza. Ainda nas costas, tinha uma espada. Era curta, mas fazia um bom serviço quando se tratava de cortar a garganta de um homem abusado.
O clérigo era alto – nem tanto para os padrões dos nórdicos, mas em relação à própria Valquíria – cheio de pose e poder. Cabelos castanhos também, só que mais escuros. Face jovial e olhos cheios de sagacidade. Uma armadura pesada. Na cintura o símbolo de seu deus: um raio dourado, preso em uma corrente. Além de uma arma no outro lado do cinto. Cheio de detalhes.
Quando terminaram um com o outro, para se observar, Tom começou:
-Sim minha querida. E quem seria você?
Ajeitando o cabelo de forma bem tímida falou:
-Valquíria. Ouvi o que falava sobre o tal Deus...
-Não minha cara. O que falei era sobre Zeus. Deus como fala é dos cristãos. O tal Deus Cristo. Eu sirvo ao Portador do Raio Mestre. Perdoe-me, mas qual motivo de querer falar comigo? Algum interesse possui não?
-Sim. Escutei tudo que falou sobre o seu deus e isso muito me interessou. Como posso ter certeza que não é falso e um embusteiro com truques de prestidigitação?
Tom gargalhou de satisfação. Finalmente, encontrou alguém digno para conversar.
-Entre bárbaros, finalmente encontro pensamentos livres. Livres dos conceitos estabelecidos pelos homens comuns. Acredito que seja uma das mais sábias mulheres dessa vila.
Sentiu o rosto avermelhar devido ao tratamento dele. Porém, não seria enganada de modo tão fácil. Queria uma confirmação que poderia confiar naquele homem.
-Se quer que eu lhe prove o que eu sou... Prepare-se. Trarei-lhe a cabeça da criatura que lhe causou tanto mal.
-Mas... – e antes que pudesse terminar a frase, Tom acrescentou:
-Se isso fizer acreditar em meu deus, vou trazer aquela cabeça.
Com toda certeza, aquele grego agia como um daqueles velhos heróis gregos. O orgulho falando alto e forte.
Ele deu as costas para Valquíria. Ela o observava com raiva.
-Mas... Que impertinente! Se voltar, vai ver.
O clérigo colocou algumas peles antes de sair. A neve já cai com força lá fora.

Dentro de uma caverna escura e sombria, em um círculo arcano poderoso cheio de símbolos rúnicos, havia um ser. Estava de pé, olhando para a única saída daquele lugar. Ainda fechada.
Breve... Muito em breve... Liberdade... Poder... Caos... Loki...
Um brilho bizarro surgia na órbita sem olhos.



[1] Região litorânea da Noruega. Pesquisar mais.
[2] Termo para fadas em geral, mas em especial as pequenas.