terça-feira, 22 de julho de 2014

(Parte 23) Última aliança


Após Galtran ajudar o resto do grupo com seus dons druidicos, apesar de possuir muitos talentos em combate, foi treinado como um druida também. E seus poderes superaram em muitos os jovens sacerdotes dos Dragões da Justiça. Mas como Vardemis disse isso não demonstrava nem metade dos dons dele. Isso causou medo e admiração em todos.
Todos os membros do grupo se espantaram com a reação de Lacktum voltar junto com o guerreiro druida até a vila. Acharam que ele se fixaria no plano de chegar ao Portal de Ixxanon. Estavam certos disso. Como se acharam tolos por terem se enganado. Dentro do coração daquele jovem ranzinza, havia algo realmente bom. Tanto que contou o que havia conversado com Galtran até ali. E ele apresentou o Imortal Esquecido completamente. Tudo isso na cabana simples de Vardemis.
-Bem, o que ocorre é o seguinte: esse é Galtran Coração Prateado. Ele é como Gor, um dos Imortais que serviu na luta no Portal Infernal.
Todos com exceção de Vardemis se espantaram com a revelação. Mais um dos membros do grupo que estava envolvido com a missão dos jovens. E como os anteriores, o guerreiro druida não parecia tão velho quando deveria ser. Aparências realmente enganavam.
-O que importa agora é que nos últimos meses ele tem viajado pela fronteira da Inglaterra. Protegendo as terras de cá contra as tropas de Kalic Benton II. Poderosos homens servem Galtran, mas eles não são como as Alianças que servem aquele maldito. Eles morrem.
Halphy e Arctus olhavam com seriedade para o mago. Eles estavam ouvindo informações, que até então já deduziam. O que Lacktum realmente queria dizer?
-Fale logo Lacktum! O que soube nesse meio tempo? – exigiu o padre.
A casa de Vardemis era muito simples. Sem mesa e com poucas cadeiras. Haviam peles de animais esticadas pelo aposento. O que tornava o lugar mais sinistro. E o que tornava a situação um pouco sufocante.
O mago então soltou uma frase que deixou os Dragões da Justiça atônitos:
-Kalic Benton nos sitiou entre dois exércitos – disse ele pesadamente e continuou – pois praticamente tomou toda a ilha.
-Como? – gritou Vardemis.
-Não pode ser! – soltou Thror inconformado.
-Mas Avalon teria sido informada com algo assim acontecendo por aqui. E eles tomariam uma atitude! – disse Halphy com certeza em suas palavras.
Os que estavam sentados nas poucas cadeiras se levantaram e começaram a discutir. Lacktum fez um sinal com a mão para se acalmarem. Ele explicaria.
-Então nos faça entender – pediu Arctus.
-Sabemos sobre três dos principais aliados de Kalic Benton. Isso sendo que encontramos com dois deles. Diogo e Mallmor. Mas nem sabemos quem ou o que pode ser esse homem que usa tal alcunha que Galtran falou que era falsa. E há coisa piores. Ele possui mais aliados.
-Exato – confirmou o guerreiro druida.
-Galtran me confidenciou sobe os aliados que não conhecemos. O inimigo possui uma guilda de alquimistas que o servem fielmente. Além disso, já notamos que possuem um controle das almas através da transmutação, como chamam a Arte desse grupo. Também soube dos ogros. Isso se deve a um suposto líder dessas criaturas. Ele se tornou poderoso ao matar ogros que comandavam as tribos dessa raça. Autodenominou-se Matadouro, o Imperador Ogro. Pode ser estranho isso para nós, mas é o que os ogros falam entre si.
Alguns riram e o próprio Thror caiu na gargalhada. Esses seres são tão incompetentes que não poderiam ter um líder.
Mas foi quando Lacktum gritou, exigindo que fosse escutado corretamente, que todos notaram a seriedade daquelas palavras.
Continuou:
-Existe algo pior que isso até agora mencionado. Refere-se a uma das maiores fontes de magia do mundo antigo.
Foi então que começaram os palpites.
-Algum artefato? – falou Seton.
-Não – balançou o mago freneticamente – É um tipo de criatura poderosa demais.
-Gênios? – começou o druida.
-Não – repeliu o paladino – Com certeza são anjos caídos.
-Quem disse? – questionou Halphy – Eu acharia que fossem fadas ou demônios, mas temo a resposta.
Os olhos da jovem da meio elfa encontraram com o do mago ruivo. Ele inspirou o ar e então falou:
-Nem um de vocês acertou. Apesar de não acreditar nessas coisas de demônios e anjos... Dragões. Kalic Benton tem pelo menos um deles ao seu lado.
Todos ficaram espantados. Um dragão significava uma das forças primordiais dos universos. Lendas sobre dragões existem em tantas culturas que poderia fazer muitos pensarem sobre o assunto. Muitos dizem, que quando a magia surgiu, depositou uma pequena parcela da sua existência em dragões de diferentes cores e personalidades. Os dragões de sangue, de ouro, de esmeralda, de sombras, da sorte e até mesmo dragões de espírito. Lendas que atravessam os mares falam sobre lordes dragões de imenso poder. Outras os citam como deuses! Mas até onde sabiam o grupo só ouviu falar sobre um dragão forte o bastante para ascender como deus. Ixxanon.
Lacktum, após muitos estudos junto de Halphy e Azerov, descobriu que o deus dragão conheceu os Imortais. Na verdade, sua ascensão se deveu especialmente aos heróis. Era algo que nenhum deles conseguiu conceber. Até então, pelo menos. Gatran começou:
-Eu soube, por pessoas muito confiáveis, que o dragão Kalic Benton possui ai seu lado é conhecido como Daehim. Um dragão de sombras. Seus poderes possuem forças sombrias e malignas ligadas com a traição. Seus poderes provêm das trevas. E o inimigo sabe como estamos.
-Como assim? – falou o pequeno surirate.
-Kalic Benton sabe que os Imortais estão se arrumando, preparando e se reunindo. E para ele pode ser perigoso isso, mesmo sendo poderoso. Talvez pelo fato que ele seja alguém superior mentalmente como uma pessoa me disse. O que importa é que ele não quer nos enfrentar. Pois poderá causar uma batalha desnecessária aos planos dele.
As pessoas na sala olhavam um para o outro com medo. Tudo que Galtran e Lacktum falaram tornava a situação perigosa.
-Mas então qual o motivo de estarmos indo em direção ao Portal de Ixxanon? – perguntou aflito o padre – Acho que isso é uma tolice.
-Nem tanto – falou Galtran – Também necessitam de treino. O lugar para onde estão indo servirá para aumentar suas capacidades. Especialmente, com os fatos que ainda não citei ao seu amigo Lacktum.
Ouvindo isso, Lacktum olhou com temor para o guerreiro das Terras Altas. Algo que ele não falou até agora deve ter sido colocado como última parte da conversa para não alarmar demais os membros. Principalmente, que não quis dividir isso com o líder do grupo.
-Uma coisa que esta ocorrendo no Vale das Esmeraldas, - explicou o guerreiro druida – é o domínio de Daehim. Ele foi especialmente mandado por Kalic Benton II para aquele lugar. Parece que é um modo de provocar o seu grupo.
Todos olhavam sem entender. Que motivo Kalic Benton teria em causar mais raiva aos Dragões de Justiça? Pareciam atitudes infantis para alguém que Galtran citou como extremamente inteligente. Mas a pergunta agora era como o mago pretendia atrapalhar a vida dos jovens.
-Mas me responda - perguntou a ladina curiosa – como ele pretende nos provocar?
-A cerca de alguns dias atrás, um grupo de homens levou consigo dois corpos até o Vale das Esmeraldas. As informações obtidas pelos meus batedores é que esses corpos seriam usados para chantagear os Dragões da Justiça.
-Hein? – soltou Thror confuso.
Todos ficavam confusos com as palavras de Galtran. O grupo já tinha muitos problemas. E uma chantagem ali deveria ser parte de algo maior no mínimo. Alguns ali na casa já tinham sua idéias do que se tratava aquela história que o guerreiro druida relatava.
-Como eles iriam querer barganhar conosco? – perguntou obstinado o mago, mas com temor na resposta.
Galtran respirou fundo e olhou para Lacktum.
-Eles trouxeram até o Vale das Esmeraldas os corpos de uma jovem e de um paladino. Pelo que sei – e novamente ressalto que minhas informações são confiáveis – se tratam de uma moça de nome Lirah e um antigo companheiro de viagens de vocês, Federick de Salles – terminou o homem das Terras Altas.
Halphy colocou a mão na boca pelo espanto. Muitos não conheciam a história da jovem noiva de Lacktum. Mas todos sabiam sobre Federick, O próprio Gustavo franziu a testa de raiva. O jovem arcano, porém, não expressou sentimento algum. Alexander se aproximou do mago, que fez um carinho em sua cabeça. Parecia até um garoto triste que brinca com um animal com a finalidade de esquecer os problemas. E não deixava de ser.

Alguns saíram. Halphy ficou na casa, junto com os animais, com exceção de Valente. Ele parecia ter se comovido com o mago ruivo e o seguiu. A história da vingança de Lacktum, fez acreditar que, entre todos, ele tinha o espírito mais combativo. Mas como Alexander diria a ele, fúria sem controle não significava nada.
Quando saíram da casa, Thror fez uma pergunta sensata:
-Onde Nico esta? Não o vejo desde que saímos da caverna. Alguém sabe dele?

Os homens de Galtran, denominados como Machados Prateados, fizeram uma fogueira próxima da vila. O guerreiro druida foi até eles beber e conversar como sempre fazia em campanha. Seton e Thror, sabendo disso, foram atrás do vinho. Arctus e Gustavo riam dos dois amigos loucos por uma bebida. Lacktum cruzava os braços pelo extremo frio que sentia.
Alguns homens cantavam, enquanto bebiam. Faziam músicas improvisadas, e quase sempre, cheias de ofensas. Algo que para a maioria do grupo era maravilhoso. Fazia tempo que não festejavam. Talvez fosse um momento para isso.
Já Lacktum e Arctus olhavam para Galtran, como se fosse um poço de respostas. Gustavo só fitava a chama da fogueira.
O mago e o padre se sentaram ao lado do guerreiro imortal.
-Vive desde quando? – perguntou sem pestanejar Lacktum.
-Pensei que iria me perguntar sobre Lirah. Mas se quer tanto saber... Acredito que estou vivo desde o século V pelo que os cristãos falam. Nunca fui muito bom com essa questão de datas. E você? Vai fazer algo com relação a Lirah?
-O que poderei fazer? O que poderia fazer? Ela, como meu pai, morreu pelas mãos de Kalic Benton. E de nada serviria conseguir o corpo dela. Tenho consciência disso agora. O que eu quero... O que eu desejo é a vingança contra o maldito.
-É, imagino como isso deve ser para você – falou pausadamente Galtran – Mas se aprendi algo nesses anos em que estive entre os Imortais é que a vingança não é plena. Ela devora nossa alma e a envenena completamente.
-Ouvi isso do cão – disse sorrindo o mago ruivo.
Galtran soprou no ar frio daquele lugar. Parecia trazer de suas memórias algo doloroso.
-Tinha como aprendiz um garoto que era irmão de Wiegref, meu amigo. Seu nome era Half. Eu gostava muito daquele rapaz, mas ele foi capturado pelo inimigo. Ele foi morto, como o aprendiz de um dos meus colegas, James. Mortos por Syrus.
-Syrus? Não é o demônio que esta em Avalon? – perguntou Arctus – Não sei muito bem se é um demônio, pois não acredito muito nisso.
-Muitos não acreditam, mas nem sei como você não acredita nisso... Mas exatamente esse sujeito. Nós o entregamos ao regente Arda, pois não é possível o destruir definitivamente. Ele é um Cavaleiro Infernal. Seus poderes transcendem as forças malignas de outras crenças, como a dos homens do norte ou os dos que crêem na Deusa e no Deus. São criações de um período em que mostrava digno como um deus. Em que sua espada nunca buscou vingança. Eu me lembro disso.
-Até parece que o conheceu, mestre Galtran – disse o padre Arctus – Fala como se nós, meros mortais pudéssemos enfrentar um mal tão grande.
-Não só o conheci e o enfrentei além de tê-lo derrotado. Eu e os Imortais Esquecidos matamos Hades, o Senhor do Submundo.

Os homens de Galtran festejavam continuamente. Enquanto isso, os membros dos Dragões da Justiça que permaneciam perto de fogueira se mantinham calados. Eles se entreolhavam devido a última frase do guerreiro ruivo. Afinal, derrotar uma divindade não era possível. Pelo menos, era isso que todos acreditavam sobre os Imortais Esquecidos, já viu citações do suposto combate contra o Senhor do Submundo. O que na verdade, sempre acreditou se tratar de uma licença poética. Galtran, no entanto, mostrava orgulho demais, como se tudo aquilo tivesse ocorrido – não de forma tão simples, logicamente – como em um combate comum. E isso, de certo modo, começava a fazer sentido. Todos em Avalon, da nobreza pelo menos, que conheciam a história daqueles heróis os citavam como lendas ou no máximo campeões que caíram pelo mais cruel dos inimigos: o tempo. O que era mentira, afinal, o tempo não atingiu aquele Coração Prateado.
-O que fez os membros dos Imortais se tornarem...? – começou Lacktum.
-Imortais? – completou Galtran.
-Sim.
Galtran olhou para o céu noturno, como alguém que caça estrelas. Mas não eram elas que ele queria. Ele caçava em sua alma as memórias de um período e local que poucos se lembravam. De repente, o arcano trouxe a memória imagem de Gor.
-Certa vez... No combate que ocorreu nos Portões Infernais para ser exato... Nosso grupo foi derrotado por um poderoso dragão. Com exceção de Wiegref e Kayla. Nossa queda fez com que Hades usasse sua última peça para seus planos. Séculos se passariam e seriamos ressuscitados por um poder antigo. Ele havia colocado em cada um de nós uma parte de seu próprio ser. Uma esfera negra, que se alimentaria de nossos espíritos de acordo com nossas experiências e crescimento em combate. Depois de grandes combates, houve a tentativa de Gibraltan de aplacar a força das trevas que crescia em nós. Mas com a intervenção de um avatar[1] de Hades, houve uma quebra no ritual. Com isso descobrimos suas verdadeiras intenções. Ele queria o poder sobre a própria forma em terra, obter um corpo poderoso entre os homens. Caminhar entre nós era seu objetivo. E após uma terrível batalha contra o deus ctoniano[2] em pessoa, nós o derrotamos. Mas não sem nos deixar sua marca profana – nesse instante, o homem ruivo se abaixou com tristeza nos olhos.
Todos sentiram pena do guerreiro druida. Nunca pensaram que a figura de uma lenda teria um destino tão triste e sombrio. Que moral poderia ser retirado daquele fato? Era claro que quando isso ocorreu, deixou nos Imortais Esquecidos uma benção e maldição. Alguns se regozijariam. Outros blasfemariam contra isso. Eles obtiveram o que poucos homens conseguiram em séculos. Eles obtiveram imortalidade. Ironia do destino.
-Acreditam que foi uma punição de Halphy – questionou o padre.
-Não – respondeu Galtran – Gibraltan  e a clériga Meg, acreditam que isso se deve ao poder execessivo de Hades. Como um efeito reverso. Mas um bardo, de nome Demetrios, nos confidenciou algo que descobriu em suas expedições pelo mundo: o paradoxo.
-Paradoxo? – se sentou confuso o jovem mago.
-O paradoxo é a linha tênue entre a magia e a realidade. Uma força mantenedora das leis da natureza e dos elementos. Ele é como uma força que equilibra o bem e o mal, a luz e as trevas, a natureza e o homem, o místico e o físico. E ao que parece nem os deuses estão livres desse poder.
-Como assim? – questionou Gustavo entrando na conversa.
O paladino se colocou na frente de Galtran. Este por sua vez o observou com o canto do olho e prosseguiu.
-Quando Hades foi destruído, sua essência continuou existindo. O paradoxo não poderia eliminar o Senhor do Submundo sem quebrar parte da ordem de Gaya. Um deus é a conexão de energias relacionadas aos seus domínios em um respectivo panteão. E isso causaria um caos nas energias desse mundo. Então, em vez de ser uma última praga jogada pelo nosso maior inimigo ou o efeito de um ritual ancestral quebrado, nossa imortalidade provem do poder que mantém a ordem nesse universo. O paradoxo.
-Então, - surgiu uma idéia na cabeça de Lacktum – vocês possuem o poder de um deus também.
Galtran riu.
-Gibraltan pensou a mesma coisa. Vocês magos pensam sempre da mesma forma. Mas nenhum de nós nunca obteve força a suficiente força para tanto. Pelo menos, é o que acreditamos. Nenhum de nós demonstrou mais poder que o comum. Mesmo sendo os seres, talvez, mais poderosos desse mundo. Acredito.
Por alguns momentos, eles acharam que fosse exagero dele. Depois de um silêncio constrangedor, todos notaram que a palavras proferidas eram verdadeiras. E que se aquilo não fosse um fato que glorificou para se gabar, estariam do lado de um dos maiores e mais poderosos homens nas terras conhecidas.

-Uma pergunta – pensou o curioso mago – existe alguma forma de reverter esse estado? Já que dizem que não se sentem bem com isso...
-Lacktum, nós sabemos como, mas para que isso ocorresse deveríamos ir contra tudo que fizemos antes. No século V, abrimos os portões e com isso, criamos um laço de conexão com Hades. Na virada do milênio, o paradoxo nos usou como âncora para manter a ordem sobre os domínios. Uma amiga nos disse que se os dados obtidos por ela forem verdade, quando os Portais Infernais se abrirem novamente a nossa imortalidade seria sugada para o Hades.
-Isso é estranho... Sugada? E qual o motivo disso? Por qual razão seria o plano superior que sugaria a imortalidade de todos? O Portal Infernal deveria abri para qualquer um dos submundos espirituais existentes.
Arctus olhou na direção de Lacktum. Adorava quando sabia mais que o mago.
-Disso eu posso falar. Algo que esta no aspecto divino. A verdade é que nos ditos, Infernos, o poder surge com o mal de seu lorde supremo. Hel é uma extraordinária arcana, Osíris é poderoso, mas Hades sempre foi habilidoso demais. Seu poder criou os Cavaleiros Infernais. Ele dominou os poderes da guerra e da magia. Seu ódio superou os limites de muitos outros deuses. Na verdade, alguns acreditam que superou o próprio Zeus, mestre dos três, Lorde dos Céus e controlador do Trovão Dourado. Com isso o seu submundo também cresceu em poder. Sendo que se o portal realmente se abrir os membros mais poderosos sairão dele. Ou seja...
-Os Cavaleiros Infernais! – falou Lacktum concluindo.
-Exato! – falou Galtran com as mãos entrelaçadas – Os Cavaleiros Infernais são derivados da Cabala ou Kabalah, que significa recebimento e aceitação. Mas em uma versão profana. Os poderes relacionados com cada Cavaleiro se derivam desse tratado filóscofico e religioso dos hebreus. Lembrando qe Syrus é um dos mais poderosos. Alguns dizem que ela possui um sentido secreto ao qual Hades decifrou. Um sentido que ele reverteria para aumentar seu poder mais ainda.
-Espere... – falou Arctus alto – Ele estava quase obtendo o poder para decifrar a Cabala? Um deus estava com dificuldades de decifrá-la?
-Por acaso é somente a maior verdade existente no mundo hebreu, caso não saiba. A tradição oculta desse povo. A poderosa magia que visa decifrar o nome de Deus através de um sentido secreto na Bíblia.
-Isso é loucura! – gritou Gustavo.
-Por qual motivo? – falou sarcasticamente Galtran.
-Deus, o Senhor, não possui um nome. Assim como não tem uma face como os homens. Com isso, podemos e devemos nos lembrar que não é certo adorar falsos deuses e ídolos.
-Então que disser que minha divindade é falsa, paladino?
-Gustavo! Pare com isso! Se ele... – quando Arctus iria continuar falando, Galtran levantou a mão em repreensão.
-O deixe padre. Diga-me... Gustavo não é? O que me diz das Cruzadas? Da famosa Guerra Santa?
-Uma batalha contra os sarracenos malditos. Os converter se possível. Mas a espada será uma alternativa. Assim, abriremos caminhos para Jerusalém.
-Os Templários, os Pobres Cavaleiros de Cristo ou até mesmo conhecidos como os Cavaleiros da Ordem de Salomão, são os únicos que acreditam nessa falsa história de conversão. Mesmo eles, acumularam imensa fortuna, dispondo de milhares de castelos e conventos por todas as terras onde o latim é comum. É certo que eles se propõem a proteger os peregrinos. Mas isso é algo que ainda não faz sentido. Não existe um bom motivo para matar alguém. O que os templários e os cruzados mostram com isso é que sua função se tornou sua função matar. Tudo em nome do Papa, o homem que distribui as palavras de Deus! O homem do trono de Pedro! Tolice é o que digo sobre isso! O motivo máximo que se tem para matar é sobreviver. Só isso e a segurança daquele que lhe são caros. Mas até isso já foi esquecido. Se acha que estou errado – então, Galtran pegou seu machado e o atirou no fogo – me diga o motivo de seu Deus nos punir? Nós! Protegemos os mais humildes. Salvamos tantas vidas que nem em séculos vocês conseguiriam salvar. E o que ganhamos do Deus Único? A imortalidade que nunca quisemos! Se cale paladino e respeite minha fé!
Gustavo iria reagir as palavras, mas foi detido por Arctus. O padre apontou para os homens de Galtran, que já haviam dominado Seton e Thror. Lacktum continuava sentado fitando a fogueira.
Então o guerreiro ruivo se levantou e foi na direção de seu machado na fogueira. Ele não esboçou nenhum sinal de dor, enquanto retirava a arma do meio das chamas. Quando todos notaram, as marcas de queimadura sumiam da palma de sua mão, com a mesma facilidade que as fez aparecer. Ele então se voltou para Lacktum, enquanto fitava um de seus subordinados.
-Arranje para o grupo bebida e comida para chegarem até o Vale das Esmeraldas. Amanhã cedo partiremos.
A animação continuou. Porém, Seton que ficou mais atento, acompanhou Thror até a casa do líder da vila para dormir. Deixando só os homens de Galtran e alguns dos Dragões por ali.

Passado um bom tempo, o mago então falou:
-Ele tem lá sua razão.
Arctus e Gustavo olharam com raiva para o arcano, mas só o segundo se pronunciou a respeito.
-Ele não tem razão.
-Pode até pensar assim – falava Lacktum enquanto se levantava – mas pense bem: se não fosse por causa das cruzadas, boa parte dos exércitos estaria em suas respectivas terras. Protegendo os povos dos monstros e de invasões bárbaras. Se bem que quase nenhum nobre acredite que essas criaturas sejam de verdade. Tornando mais vulneráveis alguns povos.
Falado isso, foi em direção da casa de Vardemis.

Quando Lacktum estava para entrar na casa, ouviu passo. Estavam bem atrás dele. O mago então se virou, carregando as mãos de mana. Mas não era um inimigo. Gustavo estava lá.
-Preciso falar com você arcano.
-Você quase me mata de susto Gustavo! – falou apavorado o mago – Não se esgueire mais!
-Me perdoe. Mas o que eu tenho a dizer vale a pena esse susto.
-Certo, então fale.
-Quando enfrentamos a prole de Argos, tivemos um combate ferrenho. E no final, Arctus dominou o monstro. Ele, o monstro falou que havia um traidor entre nós.
-Com certeza, fez isso para tentar sobreviver, imagino eu.
-É o que qualquer um pensaria. Mas ele disse que não precisava da nossa piedade.
-Típico.
Lacktum iria entrar na casa quando o paladino segurou seu braço.
-E mais uma coisa. Eu como paladino consigo sentir a verdade nas palavras dos homens e das criaturas. Seja como for eu sei... Alguém pode realmente trair o grupo. Pois é através de um dos olhos daquela criatura, pelo que sei, que consegue enxergar o futuro e os sentimentos dos homens.
-Espere um pouco homem! Se realmente ele tinha esses dons, qual o motivo dele ter morrido? Ele não deveria ter fugido ao menos?
-É assim que agem os demônios meu amigo. Contam-nos verdades com gosto de mentiras. Outras vezes, fazem o contrário. Mas acima de tudo, pode ser que ele tenha visto algo fora do comum. Algo extremamente perigoso.
-Sei... Mais alguma coisa paladino?
-Bem... Desconfio de duas pessoas. Uma delas seria Halphy. Muito furtiva e perigosa na minha concepção. E o próprio Thror parece um perigo. Pelo que me contam e pelo que vi, ele mostra conhecer algumas coisas sobre fatos que... Ele diz não se lembrar de nada. Mas isso deve ser mentira. Ele às vezes entende sobre fatos que só arcanos deveriam conhecer. Não acredita que isso seja suspeito?
-O que você fala faz sentido. Se bem que Thror não conseguiria fingir toda aquela estupidez. E Brown já me salvou diversas vezes. Preocuparia-me mais com Arctus.
Gustavo se indignou, fato ao qual Lacktum respondeu com olhos frios:
-Sei que são amigos desde antes dos Dragões da Justiça, mas ele não de ser um suspeito, se o que diz for verdade.
-Eu o conheço Lacktum!
-E eu conheço Halphy e Thror!
-É diferente!
-Ele salvou sua vida não foi?
O paladino se calou. O mago começava a compreender os fatores que ligavam o grupo. Na primeira vez que conheceu a ladina, esta o salvou de ser morto. Mesmo Lacktum tento quitado essa dívida, a sensação de querer proteger a jovem persistia. Era o mesmo com Thror. Era uma forte amizade.
-Sei que vocês são amigos. Mas isso deve ser colocado nesse caso. Olhe, eu também não descartei Nico, Seton e até mesmo os animais nesse caso. E sei que isso o aterroriza. Temos preocupações maiores. O inimigo sabe onde estamos, mas não nos atacou ainda. Há motivos para isso. Pessoais e de importância para os conflitos futuros. Se isso for verdade, e não digo que estou certo sobre o que fala, há problemas maiores para contornarmos. Prepare sua lâmina para o que vamos enfrentar, mesmo que seja um de nós.
Lacktum entrou enfim na casa, enquanto o paladino refletia sobre tudo o que foi dito. A neve caia fina sobre ele, como se Deus quisesse cobrir ele com um manto branco para acalmar seus pensamentos confusos.
Ele voltou para perto da fogueira. Gustavo espirrava e tossia pelo forte frio que surgia.

Enquanto Lacktum entrava na casa, Halphy fechava os olhos. Ela escutou boa parte da conversa entre o mago e o paladino. E temia o que poderia acontecer.
O que estava para acontecer poderia causar grande destruição no mundo. Ela realmente não queria se envolver com o que iria ocorrer. Mas já que havia surgido nessa história de loucos, iria até o final dela.

No dia seguinte, todos se preparavam para partir. Os Dragões da Justiça em direção ao Vale das Esmeraldas e depois para o Portal de Ixxanon. Os Machados Prateados iriam para as fronteiras. Era necessário as defender contra as Alianças.
Todos se despediam. Alguns começaram a criar amizades com os homens de Galtran. Até mesmo Lacktum que enfrentou o guerreiro Eric estava feliz conversando com seu antigo adversário. Turin e Vardemis se entristeceram, pois não teriam mais a companhia dos seus heróis. Mas os armaram e os muniram de alimentação, mesmo que Galtran tenha mandado seus homens fazerem o mesmo na noite anterior. De qualquer modo, iriam conseguir alimentos bem.
Por fim, Galtran subiu em seu cavalo colocando suas mãos na crina do animal. Ele virou a montaria na direção do grupo. Todos, com exceção de Nico estavam lá. Seton espirrava demais, enquanto Thror reclamava da ressaca. Todos riam da cena, enquanto Halphy começava com suas broncas de sempre.
-Acho que é aqui que nos separamos líder dos Dragões – falou Galtran na direção de Lacktum.
-É mesmo Coração Prateado.
-Espero que cruzem o vale em segurança. Acredito que enfrentarão as forças de Kalic Benton II e uma grande parte de homens repteis. Por isso, realmente espero que não tentem enfrentar Daehim e suas tropas diretamente. Caso seja necessário, que o Deus e a Deusa os protejam.
-E Ares também! – ressaltou Thror, com uma enorme ressaca.
-É – falou o padre – Certo grego. Ares também.
Galtran girou como a montaria na direção contrária, quando Lacktum gritou. Ele ainda tinha dúvidas.
-O que foi meu jovem?
Era engraçado ouvir aquilo de um homem, que aparentemente, não era assim tão mais velho que ele, pensou Lacktum.
-Duas perguntas. Já que são tão poderosos, não obtiveram os artefatos por qual motivo?
-Ele tem razão! – falou Halphy.
-Atchim! – soltou um resfriado Seton.
Galtran então respondeu:
-O paradoxo age de formas inusitadas. Ele nos impede de alcançar os itens do Desalmado e do Cavaleiro de Platina, fisicamente, nos lugares onde estão escondidos. Porém, ele não impede que aqueles ligados a nós, busquem os artefatos. Falo de laços familiares distantes. Vocês, para ser mais exato. Mas o paradoxo também vai agir em vocês. Estejam preparados.
-Era sobre isso minha pergunta seguinte. Como o paradoxo age sobre nós? Eu sinto que algo diferente sobre os Dragões.
-Você é bem sábio, sendo tão jovem! Bem, além da imortalidade, o paradoxo afeta nosso grupo e todos os que acumulam experiência de nossas famílias de um modo único. Chamamos de véu. Logo, logo verá isso com seus próprios olhos. As pessoas com baixo poder espiritual irão se esquecer de seus rostos. Não se lembrarão do que fizeram por eles. E isso, mesmo que se torne um fardo, vai só aumentar. Se preparem, pois assim são as lendas. Elas nascem, quando a realidade se torna um véu para proteger os homens de si mesmo. Se preparem, Dragões da Justiça!
E com isso, Galtran colocou sua montaria para correr contra o vento. O garanhão relinchou com força.
Os Dragões já haviam se despedido. Todos começavam a andar. O único problema, dizia Halphy, era o resfriado de Seton. Ela falava que mostrava a posição do grupo aos inimigos. O druida soltava pragas contra a feiticeira ladina, enquanto o guerreiro grego reclamava da ressaca.

Após um bom tempo de viagem era possível ver o objetivo do grupo. Após alguns dias, já se via o Vale das Esmeraldas. Era uma depressão alongada, entre montes, com um pequeno curso de água. Havia uma pequena planície fértil e cultivada. Mas que agora, estava toda cercada de estacas para se proteger de ataques.
Isso se devia, logicamente, aos novos habitantes do lugar: homens repteis e alguns poucos ogros. Foi como Galtran havia comentado para os aventureiros.
Havia lendas, que no Vale das Esmeraldas, surgiu um mal tão antigo e poderoso que trouxe desgraças para a região. Mas graças à intervenção de Galtran, venceram a criatura ancestral. Depois de muito custo e sangue eles derrotaram um poderoso dragão de esmeraldas.
Este ser, mantinha o controle sobre monstros que todos acreditavam ter sumido da face da ilha. Com toda a certeza deveria haver alguns ninhos deles na ilha vizinha, provavelmente.
Os homens lagarto eram criaturas escamosas, bárbaras e primitivas, que poderiam ser muito perigosos quando provocados. Ou mesmo quando isso não ocorria. Parecia ser o cruzamento entre um homem e um imenso lagarto com dentes do tamanho de um lobo. Suas mãos terminam em garras. Malignos quanto o pior dos demônios. Extremamente agressivos e adoravam a carne de seus inimigos – em especial de humanos. Não são muito inteligentes, mas sua ferocidade e instintos primitivos compensavam esse problema.
Eles viviam em tribos, chamadas de ninhos. Eram comandadas pelo maior e mais feroz entre eles, sendo que os mais capazes de acompanhar o líder se tornavam seus homens de confiança. Era um rascunho de uma sociedade bélica antiquada que funcionava.
Possuíam o dom de serem grandes nadadores e visão no escuro. Camuflavam-se com extrema habilidade. O que os tornavam exímios caçadores. Além disso, tinham caudas bem afiadas, assim como suas bocas.
Havia várias árvores cortadas, colocadas como barreira para impedir a entrada dos oponentes. Apesar das pontas serem mal cortadas, como azagaias.
Os homens lagarto eram um povo extremamente primitivo que não sabia produzir suas armas. Possuíam um apreço pelo calor do sol e do fogo, mas não compreendiam como forjar, e temiam essa arte. As armas eram feitas de madeira ou presas e ossos de feras mortas por eles. Quase sempre, javali ou lobos. Os mais valorosos, enfrentavam ursos. Os mais audaciosos enfrentavam os perigos marítimos para conseguir enfrentar e obter apetrechos dos horrores submersos. Era realmente um milagres eles não saberem forjar.
Todo o grupo observava isso de longe, através de um item que Lacktum usava. Chamava-se luneta. Ele fazia com que as coisas ficassem duas vezes maiores na visão deles. Alguns achavam que se tratava de magia. Mas pessoas como Lacktum, Halphy e Seton compreendiam como aquilo realmente funcionava.
Outro meio de saber como estava tudo por lá era o corvo de Lacktum, o animal espiritual do mago. Esse tipo de ser era invocado quando um arcano se julgava preparado para trilhar os caminhos mais complexos da magia. Não eram animais de verdade, mas sim, espíritos da Arte. Criados para auxiliá-los na trilha que tomam. Eram os companheiros verdadeiros dos magos e feiticeiros.
Tanto a luneta como os meios de evocar o corvo, tinham sido entregues por Azerov, meses antes.
Lacktum estendeu o braço, ao qual, o corvo pousou nele. Ele havia mandado a ave espiritual reconhecer o território do Vale das Esmeraldas. O mago fitava os olhos da pequena criatura, como se estivesse em transe.
-E então Lacktum? – perguntou Halphy encostada na árvore.
O mago estava em um dos galhos da mesma árvore. Assim teria uma visão mais ampla do vale.
-Ainda não consigo me comunicar tão bem com Rec, mas ao que parece, o lugar esta recheada de homens lagarto e ogros. Não há entrada segura. E estando no meio do vale...
-O que esta no meio do vale? – perguntou Thror.
-O Covil do Dragão Adormecido. O lugar onde Galtran teria enfrentado um terrível dragão. Passando por ele chegaremos, enfim, ao Portal de Ixxanon – falou tranquilamente Gustavo – Deveria prestar mais atenção no que Lacktum e Halphy normalmente falam grego.
-Certo! – emburrado falou Thror.
-O que faremos então? – questionou Arctus.
-Ah... Amigos? – falou Furta Trufas.
-Espere um pouco texugo – pediu Lacktum – Então, acredito que uma entrada direta é o mais recomendável. Mesmo que seja difícil. Gostaria de possuir algo para distrair os homens lagarto. Mas somos um grupo pequeno.
-Ah... Lacktum? – falou novamente Furta Trufas.
-O que foi Furta? – gritou nervoso Valente.
Alexander latiu forte, quando notou o que Furta Trufas havia percebido.
-Lacktum é realmente importante que note algo – disse a pequena criatura medrosa enquanto se afastava.
O mago que continuava na árvore não entendia nada do que estavam falando. O grupo em si já o tinha feito pelo menos. E por isso sacaram suas armas. Lacktum entendeu menos ainda.
-Lacktum salte! – gritavam.
-Que motivo tem de quererem que eu salte? Eu não vou pular do galho!
-Você não esta em um galho! – gritou Halphy – Você esta em um nariz!
Enfim Lacktum entendeu. Uma enorme sobrancelha surgiu de onde deveria ser o tronco. Duas para ser mais exato. Debaixo delas havia um par de olhos gigantes. E Lacktum estava entre eles. Literalmente o arcano estava no meio dos olhos da criatura. Uma árvore tão grande como aquela começava a ganhar vida na frente de todos. E não era só uma face que surgia ali, mas do suposto tronco também brotava um corpo. Alguns galhos de diferentes posições criavam mãos, braços e dedos. As raízes formavam um grande par de pés.
O arcano engoliu em seco.
-É nesse momento que eu grito... AAAAAAAAAH!
 -AAAAAAAAAH! – gritou em resposta o ser.

Após uma enorme confusão entre o grupo e a criatura, foram cedidas as devidas explicações. Ele era um dos poderosos espíritos da natureza que protegia tudo que surgia na flora. Não possuíam uma sociedade formada, mas eram tão sábios como os mais antigos hierofantes[3]. Era impossível os definir com um nome, pois os deuses assim o quiseram. Não eram árvores, nem homens. Mas muitos os chamavam de mestres das flores e das sementes.
Normalmente, não era possível distinguir umas dessas criaturas de quaisquer árvores. Pareciam carvalhos ou qualquer tipo de vida vegetal conhecida. Sua pele era extremamente grossa. Seus braços eram retorcidos como galhos comuns. Suas folhas ficavam amarelas nos invernos, mas dificilmente caem. Quando andam, parece até que a floresta começou a viver.
A criatura que possuía o nome de Olho de Carvalho, disse que vinha de terras inglesas. Estava vigiando o lugar para um nobre inglês e o contatou falando de um grande mal para a mãe natureza. Seu nome era Kalidor Hein Hagen. Novamente, um Imortal Esquecido estava interferindo. Não era tão estranho, visto que Galtran e Wiegref nasceram no vale.
Até onde a criatura sabia, os monstros temiam ele. Isso ocorria, pois todos aqueles seres reptilianos temiam os poderes da natureza. Era bizarro notar como as mentes daqueles monstros funcionavam: nada mais do que uma imitação mal sucedida de seres vivos. Algumas lendas contam sobre magia negra tentando criar vida. Usando animais e homens, como instrumentos para um ritual que superaria o poder das forças naturais. Algo que a Arte não respeita. Muito menos tolera.
Então um plano ousado surgiu entre os mais sábios do grupo. Ousado e louco alguns diriam. Os Dragões entrariam naquele lugar.

Havia quatro homens lagarto na frente do portão improvisado. Como já dominaram boa parte da ilha, os membros das Alianças não ligavam se os humanos notassem suas presenças. Primeiro obtinham informações, em seguida arrasavam o território, por fim, dominavam tudo e todos. Era esse o método daqueles que serviam o mago Kalic Benton II.
Os dois da frente ficavam brigando e se ofendendo. Nem prestavam muita atenção no espaço a sua volta. Também, era necessário. O lugar diante deles era completamente aberto. Muito na frente deles, havia uma floresta. Qualquer exército que saísse da floresta seria facilmente visto. Era uma boa defesa contra ataques em larga escala.
E isso foi um erro.
Facilitar as coisas era assim que alguns falariam sobre a situação. Os Dragões da Justiça não pretendiam vencer os homens lagarto que estavam na vila. Eles queriam simplesmente invadir para alcançar a caverna conhecida como Covil do Dragão Adormecido. Então, não necessitariam de um exército enorme. Só de uma árvore bem grande.
De repente, uma das criaturas que vigiava o portão – e não estava brigando – notou o movimento da mata. Na verdade não havia só o movimento. Quando os outros pararam de brigar, também conseguira notar um movimento na terra, um tremor que causava calafrios nos seres de sangue frio. Era como se fosse um trovão, pouco antes da tempestade. Não deixava de ser algo parecido.
A enorme criatura andava com força. Ele sabia que os homens lagarto temiam o poder da floresta e todos os seres silvestres e elementais. E por isso os membros do grupo se seguravam em seus galhos éramos. Aquilo era uma invasão.
Lacktum, Halphy, Seton, Gustavo, Arctus, Valente e Furta Trufas estavam neles. Fiel e Rec seguiam pelo ar, enquanto Alexander corria ao lado do enorme ser. Era realmente difícil se manter firme no meio do que seria o corpo dele. Mas com o trote que fazia se poderia entender. A força da natureza superava qualquer coisa conhecida. Como aquilo.
Não era como um exército, pois homens armado demorariam a alcançar aquele lugar. Nem houve tempo para os homens lagarto entrarem pelo portão. Um deles foi chutado para bem longe, enquanto pulava as estacas causando um tremor ainda maior.
-Se segurem firme! – disse Olho de Carvalho.
-Agora que você diz isso? – falou inconformado Thror.
-Não seja uma criancinha! Isso é ótimo! – gritou empolgado Seton.
-Calado Seton! – advertiu alto, Lacktum – Não se esqueça quais os motivos de estarmos aqui! Pode abrir caminho Olho de Carvalho?
-Logicamente! – prontamente respondido pelo ser arvoresco.
Os golpes de Olho abriam um buraco nas defesas dos homens lagarto. Era como uma tempestade feita de galhos e folhas poderosas e fortes. Muitos dos soldados tentavam se pendurar no corpo da criatura. Estes, logo eram chutados pelos membros dos Dragões. Poderia parecer até cômico, mas não era situação para isso.
As criaturas no Vale das Esmeraldas tentavam a todo custo se proteger do ataque da imensa criatura. Guinchos de medo eram escutados por todo o lugar, enquanto alguns colocavam as lanças em posição defensiva. Eles eram fracos, mas já estavam se preparando para o ataque repentino.
Enquanto alguns colocavam lanças abaixo do ser, - quase sempre, esmagados no processo – outros pegavam arcos curtos e azagaias contra a enorme árvore. Eles lançavam as armas no ar, como se fosse um enxame de insetos. E o feriam quase da mesma forma.
Lacktum notava que mesmo Olho de Carvalho sendo grandes demais, golpes consecutivos poderiam o fazer cair. E até mesmo alguns membros do seu grupo estavam sendo machucados. Projeteis. em algum momento, poderiam acertar seus alvos. Sendo que os homens lagarto não eram conhecidos por combater tão bem a distância. Sua verdadeira vantagem estava no fato de usarem sua vantagem numérica quando não combatiam no corpo a corpo. Mesmo assim, havia uma chance única de chegarem até a caverna.
-Salte mais uma vez! – ordenou Lacktum para a criatura.
E então ele o fez. Um salto digno de sua imensa estrutura. Com esse novo pulo, a criatura atravessou boa parte da vila, para não disser, do vale. Quem estava abaixo, mesmo correndo o risco de ser esmagado no processo, tinha a visão única de um ser ancestral e silvestre, fazendo uma façanha digna de seu porte e tamanho. Pena que boa parte dos espectadores se constituírem de monstros lagartos e alguns ogros.  Enquanto isso, os que estavam acima de Olho de Carvalho, ou temiam pelas próprias vidas ou se divertiam com o impulso dos saltos e solavancos.
-Isso é ótimo, muito bom - gritou Valente.
-Pare com isso! Lacktum falou que devemos nos preparar para o combate eminente! – Arctus soltava essas palavras, enquanto temia cair do galho, que jurava estar podre.
-Isso mesmo! – consentiu o mago ruivo – Agora ao meu comando saltem... Agora!
Todos saltaram da criatura ao mesmo tempo. Mas o druida se machucou quebrando a perna. O grupo deve que ficar na frente do sacerdote da natureza para protegê-lo de ataques. Federick e Thror colocavam os escudos para a defesa, contra ataques de flechas, se bem que Olho de Carvalho já concedia uma defesa natural considerável. Lacktum e Halphy auxiliavam eventuais ataques de magia ou virote. O padre tentava fazer a perna direita de Seton voltar ao normal.
Com muito custo da magia de Arctus, eles conseguiram curar as feridas na perna.
-Ele esta bem! Agora corram! – falou o padre já puxando o colega pelo braço, para correrem.
Os guerreiros ficavam atrás com os escudos. Os outros corriam. Lacktum gritou para o ser arvoresco:
-Você ficará bem Olho?
-Continuem Dragões! Eu manterei as tropas de longe até que seja seguro! Então partirei! Não se preocupem! Agora não!
Com um simples golpe, Olho de Carvalho devastava uma dezena daquelas criaturas. As mãos unidas pulverizavam os inimigos sem piedade. Mesmo com os golpes desses seres consecutivos, entre mordidas, garras, lanças, machados e martelos... Nada detinha o poder daquela criatura. E eram poucos o que se mantinham firmes, sem medo daquela brutal força da natureza.
As flechas atravessavam os galhos e ramos quase atingindo os jovens. Mas esse não era o único problema. Alguns homens lagarto, vendo o movimento dos aventureiros, correram na direção deles. Era necessário correr ao mais rápido possível.
Mesmo usando armaduras pesadas, o guerreiro e o paladino se mantinham na frente. Seton estava mais atrás, pois ainda se recuperava do machucado na perna.
As criaturas lagarto corriam de diferentes formas até os grupos. Alguns saltavam, outros corriam em duas pernas. Havia até aqueles que corriam em quatro patas. Colocavam as armas em suas mandíbulas e seguiam na direção do grupo de humanos.
Eles se aproximavam, perigosamente, do druida.
-Lacktum... O Seton... – gritou Halphy apontando para o druida, extremamente cansado.
-Eu sei! Pode deixar! – falou Lacktum enquanto carregava energia em sua mão esquerda com uma grande quantidade de energia pura ao que parecia – The storm will bring me one of their spears. And destroy my enemy.
A magia então foi jogada como uma lança. Tão certeira que acertou o peito de um homem lagarto, que foi jogado para bem longe. O druida agradeceu prontamente. Quando o jovem correu, Lacktum também o fez. Os animais já estavam na frente da caverna. Enquanto isso, os Dragões corriam por suas vidas.
Eles precisavam correr, pois o plano de Lacktum necessitava que todos entrassem no Covil do Dragão Adormecido. Era perigoso, mas era o único jeito. A cada passo, se aproximavam do objetivo principal. Mas o inimigo também estava próximo deles. Era possível sentir o hálito podre daqueles monstros, como mensageiros da morte. O medo que a situação causava era maior que a coragem naquele momento. Isso acontecia já que o plano não dependia de extrema perícia, muito menos de excelentes combatentes, ou até mesmo de magia. Dependia de Olho de Carvalho se manter firme e que o grupo alcançasse o lugar mais rápido possível. O tempo era o inimigo deles.
Todos chegaram à frente da caverna. Foi então que Lacktum gritou para Olho, enquanto entrava:
-Agora!
Nesse momento, Olho de Carvalho pegou com as mãos com formas de galhos, o pedaço de uma das casas. Com sua tremenda força e tamanho, ele girou como um pequeno redemoinho, até lançar os pedaços de madeira sobre a entrada.
Só havia um jeito de impedir reforços para dentro da caverna. Seria tampando o acesso da vila. O outro meio de chegar até lá, era muito distante e só foi revelado ao dragão Daehim e seus subordinados de confiança. Naquela situação, eles teriam que libertar as pessoas ainda vivas, derrotar o máximo de inimigos e alcançar o outro acesso. Pois para eles, o outro caminho era uma saída até o Portal de Ixxanon.




[1] Forma assumida por divindades para lidar com assuntos mortais. Seus poderes são metade da força que o(a) deus(a) possui, pois se usassem sua forma verdadeira poderia ocorrer uma catástrofe.
[2] Nesse caso, se refere a divindades do submundo, como Hades ou Hécate.
[3] Seriam os mais graduados da sociedade druídica.

domingo, 13 de julho de 2014

(Parte 22) Capítulo Dois: Prece dos refugiados



Lacktum acordou. Estava muito mal pelo soco que recebeu daquele homem. Era extremamente forte, apesar da pouca idade que aparentava. Mas se o que disse foi verdade, ele era bem mais velho que a maioria das pessoas no mundo.
Pelo que soube de seus estudos com Azerov e do período em Avalon, o grupo era formado por vinte e um membros em algumas lendas. Entre eles haviam homens e mulheres de diversas profissões e ofícios, entre magos, guerreiros, sacerdotes, menestréis, necromantes e rastreadores. Os membros eram, em sua grande maioria, humanos. Porém, havia também elfos, meio elfos, anões, elfos negros, filhos de anjos e demônios. Entre eles, não havia uma única liderança, mas um trio de homens que tomavam a frente das decisões. Seus nomes eram Kalidor Hein Hagen, James Gawain e Galtran Coração Prateado.
Galtran, quando o grupo surgiu, era o mais novo dos três. Era o mais poderoso deles também. Sua fúria era implacável. Um animal em batalha, alguns contavam. Ele derrotava seus oponentes, como uma fera que devora sua presa. Sua marca registrada era o uso de dois machados em combate, além lógico, do uso de machadinhas. As armas serviam como proteção do mesmo modo que se tornavam destruidoras em um combate. Mas seu maior dom surgia da transformação dele como um dos membros dos druidas, os sacerdotes celtas. Pois a junção de seus dons divinos com a perícia nos machados o tornava um monstro. Havia uma frase sobre Galtran, recitada pelos bardos como alerta: nunca enfrente um homem que luta que parece com um urso com cabelos vermelhos. Ele é pior que um animal ou qualquer outro ser na face da terra.
O arcano estava em uma grande, mas improvisada tenda. Tiraram o máximo de neve para fazer um acampamento, era notável. Havia muitas vozes lá fora, como se preparassem para algo. Suas mãos estavam amarradas a um dos alicerces da tenda. Em outro, estava o cão conselheiro, Alexander. Preso como Lacktum.
Sem pestanejar, ele tentou levantar. Conseguiu com muita dificuldade. Após isso, com muita calma chamou Alexander.
-Acorda Alex!
-O que... Como? – levantou o focinho rapidamente com muita dificuldade. Ele estava amarrado, e bem, pelo pescoço.
-Onde estamos? Você sabe?
-Estamos no acampamento do Coração Prateado.
-Quer disser que aquele era realmente um Imortal Esquecido? Pelas traquinagens de Loki e pela arma de Thor!
-Bem, até onde sei já conheceu Gor e Gibraltan. Qual é o espanto?
-Talvez esteja possuindo consciência do quão importante esse grupo é para a história do mundo. Suas ações afetaram povos afastados, mesmo atuando especialmente na Inglaterra. Com Gor parecia que sentia que estava junto a um colega, nada mais. Gibraltan, não conhecia direito. Só pedi a ele algumas magias para auxiliar no combate. Tirando logicamente, quando encontramos Kalidor Hein Hagen.
-Vocês conheceram Kalidor Hein Hagen? O mestre do baronato do lobo negro? Ao qual passou suas terras aos Van Kristen?
-Sim... Mas não sabia que isso ocorreu. Van Sirian era dos Hein Hagen? Na verdade, ouvi lendas. Mas como sempre nunca acreditei. Como não deveria ter acreditado que seria um bom líder...
Alexander ouviu essa última frase com estranhamento.
-Depois lhe contarei como se sucedeu de seu ancestral obter suas terras. Mas acredita que não é digno de liderar os Dragões da Justiça? Ora Van Kristen, você é o mais correto para liderar.
-Como posso fazer isso? – um enfurecido Lacktum bravejou – Halphy é sagaz como uma águia e uma cobra juntas. Thror pode ser tolo, mas não confiaria minha vida a nenhuma outra espada com um coração tão bom. Até Arctus se mostra um sensato líder. E olhe que sempre odiei os sacerdotes do Deus Cristo, como meu pai falava. Não entendo o motivo dessa escolha.
-Não foi Arda que o escolheu.
O silêncio se instaurou entre os dois. Uma pergunta surgiu na mente de Lacktum.
-Como assim? Não foi o regente quem me nomeou como líder do grupo?
-Não. Você já deve saber. Foi Aluniel.
Era tão estranho ouvir aquilo. Como se deu aquela situação? Ele continuava não se sentindo como merecedor daquele posto.
-Mas ela sempre foi mais amiga de Halphy. Já vi isso. Quer dizer, ela sempre conversou mais com ela.
Alexander latiu com raiva.
-Você não entendeu. Halphy é ágil e inteligente, Thror é perito no combate e Arctus é sábio. Você esta certo. Mas eles não possuem uma coisa. Solidão.
-Solidão?
-Sim, solidão. Entenda, você é alguém com um passado sombrio e triste. Você mesmo se gaba disso. Alguém que sofreu com a morte dos entes queridos e precisou superar isso. Esse alguém forte seria a escolha para lidar com decisões perigosas. Alguém que pensaria na dor alcançada por aqueles que ele ama. A solidão nos fortalece, mesmo quando nos consome. É só não se deixar vencer por ela. Pois é fácil não acreditar. Ou a magia que você tanto estudou foi simples de controlar? Aluniel confia em você, assim como Azerov confiava.
Calaram-se mais uma vez. Quando Lacktum digeria as palavras do cão, notou que realmente as palavras faziam sentido. Era algo que deveria ter sido falado antes. Um homem entrou na tenda interrompendo a conversa e qualquer tentativa de fuga que pensassem.
-O mestre pediu sua presença diante dele.
O guerreiro desamarrou somente Lacktum, que pensou em reagir, mas então notou mais três homens fora da tenda. Além disso, seu físico fraco e o golpe que levou do suposto Galtran, impedia qualquer chance de fuga. Sem contar com a musculatura de seus captores. Era como se fossem feito de puro aço.

Eles passaram pelos ogros sem dificuldades. Afinal, ogros não eram conhecidos por seu intelecto. Muito menos pela sua percepção. E mesmo que não pudesse ver, o som era um possível delator de Halphy e Nico.
O cheiro daqueles ogros era diferente dos que encontrou na ilha da bruxa. O odor de maresia foi trocado por um de carniça. Criava certo enjôo na ladina, mas ela como líder, estava preparada para aturar qualquer coisa. Mesmo o fedor de um horrível ogro pestilento. Humanos já eram terríveis com isso, mas os monstros pareciam abusar desse problema. Pelo menos os homens eram bonitos.
Os ogros apesar de sua leve semelhança humana tinham uma aparência brutal e bestial. A pele estava coberta por verrugas grandes e nojentas. Possuíam mais que o dobro de um homem. Esses tinham o tom de pele marrom escuro. Suas vestes consistiam em peles sobrepostas uma em cima da outra.
A caverna que adentravam não tinha nada de incomum, só o fato de ter sido construída recentemente. Com certeza, o construtor usou poderes arcanos na fabricação daquele local. Talvez tenha sido a tal prole de Argos. Quanto poder surgia de um verme mágico como as tais criaturas das lendas gregas? Não era momento para isso.
Passavam por vários corredores. Um mais escuro e sinistro que o anterior. O mal residia naquele lugar. Era possível notar as trevas daquele lugar devido ao inerente em cada pedra. A magia do lugar criava esse ar de escuridão. Talvez realmente o inimigo fosse poderoso.
Enquanto cruzavam alguns dos inúmeros corredores, encontraram cerca de dez ogros desde a entrada. Quando pensavam em voltar para pedir auxilio ao grupo, um ogro moveu a cabeça em direção aos dois. Foi quando Halphy se lembrou de algo.
-Essas bestas têm o faro apurado não é? – cochichou ela para o feiticeiro.
-Acredito que sim.
-Praga! Se soubesse disso, ou melhor, se me lembrasse... Teria reparado na direção do vento dentro da caverna.
-E o que faremos? Estamos em desvantagem.
Notou que estavam no lugar mais desfavorável da caverna. O ser enorme que com certeza mostrava que tinha sentido o cheiro dos dois no ar, logo encurralaria a dupla de batedores invisíveis. E mesmo que fosse burro como uma porta, aquele ser não seria enganado por algo tão aparente para seu sentido.
Halphy colocou as mãos para trás, na altura da cintura. Ela engoliu em seco, como se estivesse prestes a cometer um grave e terrível erro, assim como em Starten. Mas aquilo já não significava mais nada. Toda essa jornada foi o maior de todos os erros. Um a mais não faria diferença. A ladina iria agir. Então, ela quebrou o efeito mágico da invisibilidade.
Quando o ogro iria esboçar um ataque com as poderosas mãos em combate, a ladina correu na direção dele feito uma ave de rapina.
Ela pegou pela juba do monstro e subiu no pescoço alongado, como uma cobra que se entrelaça em uma árvore. Em instantes, a jovem ladina já estava acima do monstro. E em muito menos tempo ainda, uma faca estava perfurando o crânio do ser. Isso fez com que ele caísse. Foi quando ela saltou para longe do corpo inerte, fazendo um grande eco.
Sem poder ser enxergado, Nico falou:
-Impressionante! Pareceu com um dos homens do Oriente!
Do corredor, começou a surgir um enorme ogro. Ele segurava, com as duas mãos, uma clava do tamanho de uma árvore pequena. Corria como se ele fosse destruir quem surgisse na sua frente. Batia a arma no chão como a fera brutal que era, enquanto gritava algo na língua profana daquela raça. Com certeza, ouviu o barulho da queda do companheiro.
Halphy não se abalou com o surgimento do novo desafiante. Ela retirou a arma que estava enfiada na cabeça do monstro como um relâmpago. Com igual velocidade, ele arremessou a faca na direção da garganta do ogro. Isso fez com que um espirro de sangue surgisse. Ao que parece, a jovem acertou um ponto vital preciso dele. Um novo oponente caiu, gritando.
A meio elfa falou para Nico:
-Eu não estou fazendo como os homens do Oriente. Estou fazendo melhor do que eles. Homens não fariam metade do que faço.

O resto do grupo esperava, olhando os dois ogros que ficavam se com suas armas. Era nojento. Às vezes coçavam as costas e um estranho inseto – do tamanho de uma bota – caia de lá. Outras coçavam com as mãos as partes baixas com as mãos. Nesses momentos, Thror e Valente sentiam uma imensa vontade de vomitar.
Ficavam esperando um sinal de Halphy. O que demorava demais a acontecer. A garota era a mais inteligente de todos, mais também a mais ousada. Era até engraçado imaginar que eles tinham certo receio de entrar em lugares que não temia. Parecia tão frágil fisicamente falando. Mas sua alma era preenchida com uma poderosa chama e força. Isso fazia deles um grupo extremamente diferente, afinal, os lideres eram muito impulsivos.
O padre Arctus achava que os membros do grupo seguiam muito mais os instintos do que a razão. O que causava medo na mente dele. Então, ele se tornaria a razão dos Dragões da Justiça. Junto com Gustavo, poderia lidar com problemas que a Igreja tinha. Eles eram bons, só mal guiados. Uma mão de aço com a força de Deus seria o suficiente.
Mas não era mais o momento para isso.
Os dois ogros que ficavam na entrada, olharam na direção da caverna. Um grito ecoou até a saída. Se houvesse um sinal para Halphy, deveria ser esse. Turin iria ficar escondido enquanto entrassem.

Nesse momento, o guerreiro grego saltou. O escudo na frente como um estandarte. A espada curta afiada como a língua de uma serpente, ficava abaixada, enquanto percorria o campo nevado. Os ogros olharam aquela cena com certo medo. Não por conta do homem armado, indo na direção deles. E sim, por conta do grande número de pessoas surgindo como um bando de lobos famintos.
Seton, Arctus, Gustavo, Valente e Fiel, saltaram na mesma direção do guerreiro. Eles pretendiam não chamar a atenção antes. Coisa que Thror impediu com seus ataques inconseqüentes. Companheiros não abandonam os outros, alguns pensaram, mesmo nos piores momentos.
-Maldito grego da cicatriz! – gritou o padre com raiva.
-E vocês falaram que eu traria problemas! – falou de forma ferina o pequeno Valente.
Os dois ogros se posicionaram se preparando para o golpe dos inimigos. Mas o guerreiro Thror se adiantou com a arma acertando o flanco esquerdo de um dos monstros. Então acertou o lado em que o guerreiro segurava o escudo. Um golpe como aquele deveria ter inutilizado o braço dele. Ele só não ficou bem, como zombou do inimigo.
-Isso é máximo que os ogros conseguem em combate? Ha!
Com os olhos cheios de fúria ele tentou golpear Thror. Só que Seton chegou virando a enorme foice, acertando a mão da criatura. E por alguns instantes, o monstro estava desarmado.
Enquanto isso, Arctus, Gustavo, Valente e Fiel flanqueavam o ogro. Os animais atrapalhavam a visão do monstro, enquanto os outros atacavam. Porém, sem tanto sucesso. Arctus então entoou:
-Che mano di Dio in quest'uomo diventi un protettore delle anime attraverso il potere di Miguel.
O corpo de Gustavo se encheu de uma poderosa luz. Parecia como um anjo vingativo. E com isso, ergueu a espada como um Davi que enfrentava seu Golias. Assim, sua espada se encheu de grande poder, enquanto atingia seu oponente. Era como uma chama divina preenchida no mesmo momento em que recitava sua oração.
O monstro cruel se feriu com sua própria maldade. Corações cheios de raiva se tornam fracos em um combate. E isso fere demais quando a luz toca essas pessoas ou criaturas.
Então o ogro estava quase acabado. Mas usava ainda a clava como apoio para impedir sua queda. De repente, surge a maça de Arctus. E com ela, a destruição da clava do monstro e de seu maxilar.
O outro se mantinha firme. Sabia se posicionar. Girou o corpo com intenção se acertar Thror e Seton. Porém, só conseguiu atingir o grego.
-Pelos deuses! Você esta bem Thror? – falou um Seton espantado.
-Estou! – soltou um ferido guerreiro – Acabe com ele Seton.
Ele então levantou a foice rapidamente, de uma maneira que atingisse a cabeça do oponente. O bloqueio da clava foi preciso naquele momento.
Um fitava o outro. O druida da foice encarava pacientemente o ogro e sua clava. Era uma luta, tanto física quanto espiritual. Um celta fosse um sacerdote, guerreiro ou seu descendente sempre tinha em seus corações a força para derrotar qualquer ser. Pelo menos é o que sentiam no coração, todos aqueles de sangue poderoso. Houve então uma reação, e ela foi de Seton.
Novamente, ele levantou a foice tentando acertar o ogro. Quando notou um novo golpe, o ogro gargalhou. O bloqueou com a clava.
-Não saber lutar humano! – disse o inimigo enorme – Você tem que acertar.
-Eu acertei – falou isso enquanto aproximava a face do enorme ser que enfrentava – Nos chamamos isso de distração na minha terra.
O ogro notou que Thror se adiantou em sua direção com a espada em punho. Um golpe seria preciso, se no mesmo momento o adversário monstruoso não conseguisse se defender com um sonoro golpe com a mão livre. Ele acertou o punho do grego antes que fosse acertado pela espada do mesmo.
Outra espada surgiu. Ela atravessou a criatura. O sangue escorreu dele. Tanto pela boca, como pelo peito dele. O monstro se ajoelhou pela dor. Mas não sem antes golpear o atacante Gustavo.
Como golpe de misericórdia, a maça de Arctus acertou a cabeça do ogro. Nesse instante, era como se uma fruta atingisse o chão. E vários pedaços dela voassem nas roupas das pessoas próximas.
-Eca! – falou o enojado Seton.
-Bem – falou o sacerdote Arctus – melhor que nada.
Gustavo andou em direção ao guerreiro grego caído no chão. Estendeu sua mão ao amigo ferido. Mesmo com o orgulho despedaçado, Thror segurou o braço do colega paladino. Este o levantou de uma vez.
Enquanto tirava a neve de sua armadura, Thror viu Arctus se aproximando com olhos de raiva para ele. Uma bronca logo viria.
-Você tem algum problema com autoridades? – disse um irado Arctus – Não era para contornar os dois ogros pelo menos? Sem chamar a atenção lembra?
Quando Thror iria falar, o paladino interrompeu:
-Ele esqueceu.
-Ora essa. Com vocês dois para me ajudar... Não sei como estamos vivos.
Os dois continuavam o riso, quase gargalhando. Arctus olhou para eles com ar de reprovação. Já o druida tirava a foice da clava do ogro. Era cômico reparar que alguns do grupo sentiam que aquilo parecia uma diversão para eles. Foi quando uma tocha se acendeu. Iriam entrar na caverna como um resgate para a jovem ladina imprudente.

Ele estava sozinho naquele instante. O mago estava no meio acampamento cheio de homens bem armados e fortes o bastante, para com o punho, atravessasse o peito do mago. Nesse momento, Lacktum decidiu que não iria lançar magias. Quando tentasse, pensou ele, alguém quebraria seu braço
Tinha um pouco de lama que sujou a face do arcano. Ele teria gritado de raiva, se não tivesse medo de levar os golpes dos outros membros do acampamento. Os homens ali riam do fato. Ele segurava o temor dentro de si.
-Ora vejam! – soltou Galtran – Nosso mago despertou.
-Você é o Coração Prateado? – perguntou irredutível Lacktum.
-Sim. Sou Galtran.
-Antigo membro dos Imortais Esquecidos?
O guerreiro se espantou com a última pergunta do jovem. Poucos tinham noção da vida de Galtran. Pelo menos, quando participava de seu antigo grupo. Não eram muitos os membros de sua antiga companhia que nasceram nas Terras Altas. E mesmo que ele fosse um fanfarrão e gozador, nunca revelava certos fatos de seu passado. Mesmo quando ficava extremamente bêbado. Onde o garoto ficou sabendo sobre isso? Era um enigma. Mas não para agora.
-Não sei onde você soube sobre os Imortais, mas eu juro que você vai falar disso depois.
-Depois? – pensou alto o mago – Depois do que?
-Bem, nosso povo tem um modo bem peculiar de resolver problemas. Como você é um invasor...
-Eu? Invasor? – falou Lacktum indignado.
-É, você! Não é inglês?
-Sim, mas...
-Então é um invasor.
-Isso não faz sentido! Pensei que você fosse um líder. Alguém...
-Alto lá! – retrucou o guerreiro ruivo – Sou um líder, mas como um maldito inglês que é com certeza deveria ter chegado aqui ferido ou morto! Tanto faz. Como não sei se você é um dos espiões das tropas invasoras?
Foi então que Lacktum procurou a adaga que lhe foi concedida por seu pai. Não achou.
Galtran então retirou de seu manto um pequeno item. Lacktum notou que o item que ele segurava era o presente de seu pai.
-Devolva-me! – exigiu ele.
-Devolver? Por acaso é parente dos Van Kristen? Essa arma tem o brasão dos Van Kristen.
-Sou um Van Kristen criatura sem mente! Devolva-me!
O druida guerreiro começou a andar em volta do mago. Não parecia com ninguém da família que conhecia. Era fraco e nem sabia lutar pelo pouco que viu. Soube que a família de seu antigo companheiro era voltada para a batalha, pelos boatos. O que aquele saco de carne mal feita poderia fazer em um combate verdadeiro?
-Você não pode ser um Van Kristen.
-Eu sou!
-Então prove.
-Você esta com a minha prova! – falava isso enquanto apontava para a adaga na mão de Galtran.
-Não com isso! Você poderia ser um ladrão que roubou um deles, ou até um assassino que colocou veneno em sua comida e vinho. Você irá provar do nosso modo.
-Eu um ladrão? Você esta ficando louco homem? Veja se tinha algum item de ladino comigo! Nenhum! Qual o motivo para tanto então? Isso não vai servir de nada! Por acaso – pensou o mago enquanto começava a compreender parte da intenção de tudo aquilo – quer que eu lute? Mas isso não provaria nada! É patético! É ridículo!
-Era de se esperar isso de um inglês. Mas saiba... Nosso país, nossas regras.
Todos que estavam ao redor da arena riram. Era uma cena engraçada, ver um inglês mostrando o quando era patético para eles.
O mago olhou ao redor. Então gritou com raiva, enquanto envergava o corpo para trás. Todos olhavam com receio para ele. Não parecia mais um mero inglês.
-Tudo bem bando de bárbaros idiotas! Eu entro no seu desafio sem sentido! Se essa é a única maneira de se fazer entender! E verão como age um Van Kristen em combate! Venha logo Galtran! E termine com essa besteira!
Todos se calaram, enquanto Galtran esboçou um sorriso.
-O que foi que eu disse de errado? Hein?
-Nada. Mas não serei eu que vou lutar com você.
-Como assim?
-Adoraria fazer isso com um inglês pulguento. Mas fico meio irado e fora de controle em combate. E é muito ruim. Não queira ver. Mas meu amigo Eric será um desafio melhor.
Surgiu então um homem, aparentemente mais forte que Galtran. Era loiro, com uma barba e não usava camisa. Portava um escudo e uma espada de madeira. Parecia estar cheio de cicatrizes. Um guerreiro experiente era claro. O que já causou temor em Lacktum.
-É com Eric que você lutará suposto Van Kristen.
-Ah, esta certo, suposto Coração Prateado. Que maldito dia para despertar...

Entregaram-lhe uma espada de madeira improvisada. Lacktum não quis um escudo.
Sorte que havia decorado magias suficientes para aquele dia. A magia não funcionaria direito em um combate direto. De repente, sentiu muita falta do velho Thror. Mas achava que mesmo que o grego da cicatriz teria dificuldades com aquele homem enorme. Pelo menos ele teria uma maior chance de vitória.
Os dois se uniram no meio da arena. Enquanto Eric batia a espada na madeira do escudo. Era algo que até onde Lacktum sabia, vinha dos costumes dos homens do norte. Com certeza ele também deveria se um homem da religião asgardiana. Costumes de bárbaros, alguns diziam. Lacktum começava a concordar.
Gritos pediram por uma luta. Eis que Galtran saiu da arena. Então, gritou com certa satisfação:
-Que comecem o duelo!
-Praga! – gritou Lacktum quando notou o homem loiro correndo na direção de si em uma investida, com a espada erguida.
O mago se esquivava dos golpes, enquanto tentava conjurar uma magia, mas o guerreiro não permitiria. Sempre o acertando em todos os pontos possíveis. Fazia Lacktum perder a concentração.
Ele corria para alcançar um dos cantos da arena. Pensava que poderia conjurar uma magia ali. Mas não conseguia.
-Praga! – um novo acerto em sua mão a fez arder. Tanto pela dor do golpe, quanto pelo choque da magia partida.
Magias partidas, normalmente causavam efeitos ruins. Poderiam ser pequenos ou enormes. Desde dor física a efeitos colaterais arcanos bizarros. E era isso que Lacktum mais temia.
Esquivou-se de um novo golpe de guerreiro. Aproveitou a deixa para correr para o outro canto. Quando o fez, tentou conjurar uma magia, mas sua mão tremia muito. Novamente, perdeu a concentração devido aos golpes que sofreu.
E uma nova investida apareceu devido ao guerreiro Eric. Muitos juraram, que mesmo feito de madeira, se acertasse perfuraria o peito dele. Especialmente o mago que serviu de alvo. Lacktum esquiva.
Em certo momento, o arcano ruivo se esquivou de um dos vários golpes e pensou em lançar uma magia que destruiria todos ao redor. Contraiu sua mão. Mesmo não gostando disso não poderia machucar todos no acampamento.
Uma investida iria surgir.
O meio do campo. Lá seria seguro conjurar algo. Então a magia não afetaria nenhum inocente. Mas será que ela não falharia, era o que pensava. Um erro ali poderia colocar tudo a perder.
-Magia é acreditar em si mesmo – ele falava enquanto começava a correr com as mãos cheias de mana. Lembrou-se de palavras de muito tempo atrás de alguém que lhe serviu de mestre.
O inimigo não se intimidava com o esquálido mago. Mas deveria. Parecia que o mana não saia só de sua mão, mas de todo seu corpo. Era como uma fonte de água cristalina com cores distintas, mas que se concentravam especialmente em um tom vermelho. A magia começou a tomar forma de uma esfera de energia pura em fogo. Pulsando como um coração, Lacktum colocou a magia na frente do corpo na mão esquerda.
O adversário estava próximo demais, para sair de frente do golpe arcano. De repente, o mago soltou a esfera.
-Magia é acreditar em si mesmo! In my hands the flame dragon emerges. The ancestral force of destruction.
Então o coração de fogo tomou toda a arena em um movimento de pensamento. Era uma bela e imensa bola de fogo. Tão grande, que até mesmo um observador distante veria ela claramente. O vermelho se confundia com outros tons de destruição. A magia se consumiu tão rapidamente quando surgiu.
Todos os observadores olhavam atônitos para a arena cheia de chamas. O fogo estava se dissipando. Se acertasse uma das tendas, com certeza iria colocar fogo em todo o acampamento. Aquele inglês era louco alguns diziam.
Galtran observava arena, severo. Especialmente para o centro da fumaça.
Foi quando a figura cheia de queimaduras e feridas, de Lacktum surgiu no campo de batalha triunfante. Parecia um rei que retomava seu domínio após anos. Ele olhou na direção do líder daquele acampamento com muita raiva.
-Eu acho que venci Galtran! Se quiser saber, achei tudo isso sem sentido! Não havia motivo para matar um homem seu! Não teria como saber se eu sou um Van Kristen através de uma luta!
Galtran riu.
-Sinceramente, eu não quero saber o que acha ou o que deixa de achar. Nós temos certos costumes. A luta demonstra sua verdadeira natureza, não suas palavras. A prova disso, é que fui enganado varias vezes em minha vida. Por palavras. Eu te amo é fácil de pronunciar, mas difícil de provar. Disser que tem saudades qualquer um poder falar. Mas demonstrar, normalmente é impossível às vezes. Pois somos fracos como meros homens sempre são. Mas algo entre os que nascem do sangue dos Imortais Esquecidos mostra que seus corações estão em suas ações – e soltando novo riso – Ah! E Lacktum... Eric não morreu.
Lacktum notou que Galtran apontava para trás. Quando observou a fumaça se dissipando, notou que surgia a forma do guerreiro descamisado e loiro. Com o punho cerrado, ele golpeou o arcano que logo caiu no chão. O guerreiro sentou ao lado do corpo do desmaiado mago ruivo.
Galtran falou com seus homens, pedindo que levassem os dois para sua tenda onde os curaria.

Eles entraram na caverna temendo o que pudesse acontecer com Halphy. Mas então notaram, que deveriam se preocupar com os pobres ogros.
Havia vários corpos de ogros por toda a extensão da caverna. Quase todos com golpes precisos em áreas específicas do corpo. Era como se tivessem enfrentado um furacão.
Seis ogros foram mortos pelo que contaram. Passaram pelos corpos com ar de espanto. Será que teriam sido Halphy e Nico? Mas eles não seriam tão perigosos.
O grupo nunca esteve tão enganado.
No último corpo, encontraram a ladina Halphy Brown, limpando sua arma, enquanto o feiticeiro misterioso ajustava o pulso que crepitava mana. Não pareciam nem um pouco cansados ou exaustos. A jovem tinha uma feição de satisfação, quase sádica. O rapaz parecia meio irritado com a atitude dela. Todos estavam espantados com a cena, mas não poderiam se abalar ali.
-Halphy! – gritou Arctus desesperado – Sabe onde é que estão os prisioneiros? E a prole de Argos?
A jovem guardou a adaga e então respondeu:
-Acho que estão no caminho da esquerda – falava enquanto apontava para um dos túneis – Mas o do meio... Acredito ter visto dois ogros fugindo. Não sei... Meus instintos dizem que a prole esta lá. Vamos, me sigam!
-Certo! Você esta no comando de novo.
Halphy se sentiu bem. O comando do grupo não era sua meta, mas agradava a idéia de liderar. Sempre se achou mais competente que Lacktum ou Thror juntos. E Arctus, apesar de sua suposta sabedoria estava há pouco tempo no grupo. Além de que ela compartilhava as idéias de Lacktum sobre os sacerdotes católicos.
Mesmo assim, o grupo se movimentava na direção do túnel. Como uma tropa que adentrava território inimigo, todos se preparavam para um ataque surpresa.
Seton então olhou para Nico e perguntou:
-Foram mesmo vocês que fizeram aquela chacina? Com certeza foi através de sua magia que conseguiram.
Nico balançou a cabeça em negativa. Seu rosto diante da luz da tocha que Seton havia acendido e segurava, parecia espantado. Mas não assustado.
-Conheci muitas pessoas e monstros. Posso lidar com diversos seres, pois sei que sou poderoso. Tenho certeza! Mas essa garota não teme nada! Parece possuir a persistência humana e o orgulho da raça dos mais perigosos elfos. Ela poder ser só uma meio elfa, mas poucas vezes viu um sidhe tão corajoso, quanto ela. Tenho pena de quem se intrometer em seu caminho.
Quando Seton perguntou, sabia que ouviria uma boa resposta. Mas não imaginaria que escutaria alguma coisa que deixaria suas pernas tremendo tanto. O grupo não tinha só uma ladina feiticeira e meio elfa. Possuía uma especialista na arte de matar, uma assassina.

Argos.
Esse tipo de monstro se esconde em cavernas enormes e perigosas, pois as lendas contam que a luz do sol feria seus olhos arcanos, como punição de Apolo, como um favor a Zeus. Por isso era uma criatura subterrânea, alguns diziam.
Isso foi mais notado, quando todo o grupo viu que onde a prole de Argos se escondia, era cheio de pedras mais pontudas. Pareciam até as presas de um dragão, de tão afiadas que estavam. O que não conseguia amedrontar os companheiros.
Algo que poderia trazer temor para os Dragões era a cena que eles presenciavam. No lugar havia os dois últimos ogros daquele bando. Estavam usando armaduras leves, que para eles, mais pareciam pequenas tiras de metal. Suas clavas eram feitas de um enorme e resistente carvalho. Havia uma sombra entre as duas criaturas, que parecia ser protegida pelos seres enormes.
Aquilo era uma prole de Argos.
Uma esfera de carne aparentemente distorcida. Vários olhos estavam incrustados na pele do monstro. Algumas vezes, era possível notar que os olhos formavam quase um rosto, mas só ocorria para criar um senso bizarro de estética. Só possuía uma única bocarra que parecia estar sempre sorrindo. Era como se surgisse do seu pesadelo mais horrível. O ser repulsivo flutuava no ar como uma mancha negra que surgia nas mentes dos mais fracos.
Os dois seres truculentos se posicionaram de forma que protegessem a prole. Mas era possível notar que o lugar forçava os inimigos a passarem por ele para chegar até o monstro.
Com isso, a criatura começou a falar:
-Ora então são esses os tolos aventureiros que adentraram meu covil. Por qual motivo invadem o lar de Ortro?
Seton segurou o riso, enquanto Halphy falou:
-Pois nós viemos destruir você criatura. Solte os habitantes da vila e pouparemos você e seus servos. Que tal isso?
-Acreditam mesmo que poderá me enfrentar? Noto que fizeram um bom serviço até agora. Mas os dois ogros que sobraram são meus melhores soldados. Além do que, não conseguiram me enfrentar em um combate arcano.
-É isso – grunhiu o ogro.
-Mestre certo – soltou o outro.
Foi quando a ladina pegou a besta que não usava a um bom tempo, apontou para a criatura líder. Ela mirava com extrema cautela.
-É isso que você diz – ela respondeu – Nico ataque com tudo!
A mão de Nico se encheu com um raio de energia pura. Era como se uma lança fosse jogada. Halphy percebeu que o golpe arcano era tão poderoso, que tinha quase certeza que seu efeito tinha surgido com sua força máxima. Ela ouviu sobre arcanos que conseguiam trazer a potência máxima da Arte, mas eram raros. Como poucos dominavam esse poder, ela pensou que ele talvez fosse do Oriente na verdade.
A prole de Argos se protegeu flutuando para longe da linha de visão do golpe. Parecia que ele mesmo, sentia medo daquela magia. Nico poderia ser calmo, perigoso e tremendamente assustador, é o que os mais inteligentes se perguntavam.
Mas logo em seguida, literalmente, em um piscar de olhos, a bizarra criatura disparou uma grande carga de energia. Foi em direção de Thror.
Quando o raio atingiu, fez o guerreiro grego se sentir cansado e exausto. Ele já se sentia fraco pelo dia difícil que passou, mas não tão rápido e de forma terrível quanto aquela magia o fazia sentir. Era algo pavoroso.
Os ogros partiram para o combate, acreditando que Thror estava fraco demais para combater.
-Venha aqui careca da cicatriz. Irei enfiar meu punho no seu peito e arrancar seu coração como se fosse uma galinha.
Foi um ledo engano do ogro.
Nesse mesmo instante, o guerreiro que ainda parecia abatido, olhou com raiva para o inimigo.
-Você me chamou de careca da cicatriz?
Quando o ogro levantou a clava, foi possível notar que Thror se agachava com a finalidade de acertar suas pernas. O que conseguiu tão rápido como um relâmpago.
Isso não desestabilizou o monstro, mas concedeu tempo suficiente para que Thror pudesse passar por debaixo dele. Foi quando o grego bradou:
-Não... Fale... Mal... Da cicatriz!

Um dos ogros mantinha-se firme. Enquanto o outro parecia firme, sem levar nenhum golpe. Enfrentando ele, estavam Seton e Arctus. O druida tentava, inutilmente, acertar o monstro. Era como tentar afetar uma parede de tijolos.
Mas um sacerdote como Arctus sabia exatamente o que fazer nesses momentos.
-Metatron's words, let the weak by putting yourself in the way of the righteous.
De repente, a muralha viva parecia não conseguir conter os golpes do jovem druida. Enfraqueceu rapidamente, devido às palavras místicas. Mesmo em uma língua que não conhecia, elas afetavam o ouvinte. O enorme ogro se sentia desestabilizado.
-Ah! Homenzinho maldito!
-O que acha disso agora? – falou Seton.
Então a foice acertou a mão do enorme adversário. Esse, nem sequer demonstrava dor. Aproveitou para golpear os sacerdotes.
Enquanto isso, os animais ficavam escondidos. Não pelo fato de temerem algo, afinal, Valente e Fiel não temiam coisa alguma. O problema é que Furta Trufas desmaiou ao ver a prole.
-Acorda Furta Trufas! – dizia Valente, enquanto batia no focinho do colega.
A prole de Argos, autodenominada Ortro, soltou raios na direção de quatro alvos. Um raio azul atingiu Gustavo, enquanto um raio vermelho acertou Seton. Para Halphy, surgiu uma enorme nuvem de fumaça. Por último, uma mancha negra tocou Thror.
O ombro do paladino foi machucado por uma grande parcela de gelo. Aquilo impedia o movimento do braço, além de gerar uma dor tremenda. Era como partir gravetos de madeira.
Já o raio de cor avermelhada, jogou o druida contra a parede. Foi possível ouvir os ossos partindo como um boneco quebrado. A parede ficou cheia de fissuras.
A fumaça que afetava Halphy parecia querer sufocar. Mas o ar estava cheio de um veneno estranho. Ele entendia disso. O efeito daquela magia era criar uma névoa venenosa, mas que na afetava mais a jovem, pois ela tinha trabalhado seu corpo contra forças nocivas – naturais ou não.
Com a mancha negra afetando Thror, parecia que nem sentiu a perigosa força arcana.
Halphy, após tossir o veneno, voltou a preparar a besta.
-Gustavo, esta bem? – gritou enquanto mirava para o oponente sua arma – Pode me ajudar atacando o monstro?
-Tudo bem – ele respondeu. Pegou a lâmina com a mão inábil, já que a outra estava parcialmente paralisada, e golpeou o humanóide monstruoso. O golpe foi eficiente, mas não o suficiente. Ele se mantinha de pé.
A ladina se mantinha na posição. A arma estava na posição precisa. Não havia erro. E não houve.
O virote zuniu no ar, atravessando o combate entre os heróis e os ogros, para conseguir acertar o líder dos monstros. Mesmo com os olhos se revirando no ar, o projétil dela acertou o alvo. A criatura flutuante gritou de dor finalmente.
Ninguém saiu do lugar. As armas se colocavam entre eles como se impedissem os aventureiros de atingir Ortro. Um dos ogros cuidava de Thror e Gustavo, enquanto o outro lidava com Seton e Arctus. Não era uma situação comum dois combatentes e dois sacerdotes partirem para cima de seus alvos de forma direta, mas Halphy tinha um plano: se eliminassem um dos ogros rapidamente, seria mais fácil o grupo alcançar a prole de Argos.
Depois de certo tempo, a criatura preparou outras magias pelos olhos. Uma enorme carga de energia – do mesmo tipo que afetou Thror inicialmente – atingiu Gustavo. Sem resultado. Outro raio, de luz acertou Halphy, mas sem uma conseqüência verdadeira. Seton e Arctus foram atingidos pelo mesmo raio espiralado, mas só o druida foi realmente atingido sentindo muita dor. Ele caiu no chão. Um último, rápido, explodiu na pele do guerreiro grego. Nada que ele não lidasse sozinho.
Foi quando a ladina feiticeira notou algo. Os olhos não disparavam as magias em uma ordem correta. Eram aleatórios. E até os números de ataques aumentavam.
-Gustavo, passe logo por esse monstro! – gritou ela comandando o grupo – Se não o matarmos logo, ele poderá lançar magias mais perigosas!
-Esta bem! Vou tentar! – foi quando o paladino levantou sua espada na direção do oponente. O golpe de sua lâmina foi perfeito na parte esquerda do ogro. Tanto que com seu último corte, fez a criatura cair, enfim.
Terminando o golpe, Gustavo se abaixou, enquanto colocava a espada para trás se posicionava na direção do monstro. Fazia isso enquanto corria. Um novo golpe acertou a criatura flutuante.
O ogro continuava seus ataques. Agora com uma freqüência louca. Se ele não se defendesse seria morto com certeza. O padre mais esperto conseguiu prejudicar sua mira. Era o momento de se mostrar como alguém forte.
Foi quando o ogro cometeu um deslize. Sua clava bateu no teto da caverna. Isso fez com que pedras caíssem. Algumas o acertaram. Nem sequer o machucou o bastante, mas foi tempo suficiente para um golpe certeiro de Arctus.
-Era minha vez! – gritou Seton como uma criança insatisfeita, enquanto estava no chão.
O ogro caiu, enquanto os ossos da face se partiam devido a arma do padre.
-Desculpe... Eu acho...

Só obrou Ortro no combate. Halphy com a besta começou a querer negociar:
-Olhe aqui Ortro, – disse ela enquanto preparava outro projétil – acredito que seria melhor se entregar ou será destruído. O que acha? Podemos ser clementes.
-Clemência? De uma fealith e um bando de humanos fedorentos? Nunca! Não irei entregar meu corpo e alma corrompidos para criaturas tão insignificantes e gananciosas. O mal permeia o meu ser, mas meus olhos enxergam não só o que é aparente. E essa mancha negra que eu possuo vocês também tem. Não serei tolo para me entregar.
-Então, - disse Gustavo agitando a espada longa – não diga que não avisamos.
-Dragões, ataquem! – gritou Halphy liderando.
-Por Ares e Zeus! – disse Thror saltando na direção do monstro coberto de olhos. O golpe acertou um dos olhos do monstro.
Os olhos piscaram novamente. Uma grande quantidade de magia se espalhou por todos os lados como uma terrível e poderosa tempestade. Com força o suficiente para danificar a caverna. Mas não o suficiente para destruir.
Novamente os raios foram atingindo o grupo. Vários deles estavam extremamente feridos. Gustavo parecia não se conter de dor. Vários espinhos de madeira surgiam no corpo de Arctus . Seton sofria com uma mancha profana no seu corpo. Thror parecia confuso, sem saber quem atacar. Só Halphy se matinha de pé mesmo com pedras afiadas cortando sua pele. Apontava a besta na direção da prole.
-Ora essa fealith! Esta com tanto medo que não consegue me atacar? – gritou o monstro se achando superior.
Ela riu daquilo.
-Qual foi a graça?
-Primeiro não sou uma fealith. Sou uma meio elfa e me chamo Halphy. E eu não estou atacando, pois estava preparando uma magia. Soyez doux comme un oiseau survolant la mer. Et aussi dévastateur que le loup sur la proie!
A seta atravessou a boca do monstro como se fosse água. Ele caiu no chão sangrando um líquido verde fedorento.

Seton foi ajudar o resto do grupo, incluindo Halphy, que conteve a dor até agora. Os golpes das pedras feriram suas pernas, barriga e o rosto. Mas se manteve firme até então. Alguns efeitos arcanos estavam sendo dissipados.
-Dói muito? – disse o druida para a garota.
-Só quando eu fico olhando para esse seu rosto de... Ai! – ela soltou enquanto o druida curava a ladina feiticeira. Ela ficava muito irritada com perguntas tolas.
Arctus se aproximava do corpo da prole. Ela tentava manter-se viva. E era algo que o sacerdote logo resolveria.
Ele ergueu sua arma quando a massa de carne e olhos fitou o sacerdote de Deus. Quando ele iria golpear o monstro, a criatura disse:
-Espere homem do deus Cristo!
O padre hesitou. Por algum motivo sabia que ouviria não seria plena verdade, mas não estaria tão longe dela também.
-O que quer demônio? Não queria clemência antes. Qual o motivo de querer falar agora?
-Nunca pedirei clemência a um humano! Mas sei de algo que poderá lhe ser útil... Meus olhos arcanos conseguem não só lançar magias, mas podem ver o que as almas sentem e desejam... Um de vocês esta para trair o grupo... Posso lhe falar quem é. Uma barganha.
As palavras faziam sentido para Arctus.
-Isso deve ser uma gestão mágica! Morra cria infernal! – após isso, golpeou o temível ser.
-Argh! – soltou em agonia ser – Isso não foi magia e você sabe que eu falo a verdade.
Todos olharam e ouviram a conversa entre Arctus e Ortro. Todos se entreolhavam, enquanto o padre fitava todo o grupo. Era verdade. Ortro não lançou magia alguma. Esse é o maior poder de um demônio: semear o mal e a mentira usando uma verdade cruel.

Laccktum despertou na garupa de um cavalo. Ele estava junto de Galtran, enquanto cruzava a neve. Havia vários cavaleiros ao redor deles. E em um deles, o mais próximo, estava o cão Alexander.
-Mas que loucura é essa? Para onde vamos? Ei? – perguntou o mago nervoso e afobado.
-Vila dos Meio Sangue. Seu amigo Alexander nos avisou sobre o seu grupo. Então, vamos ajudar eles.
-Ele falou com vocês? – se espantou o mago, enquanto olhou novamente para o canino colega.
-Ele falou comigo. E ele é de Avalon. Não era para falar?
Para ele, o guerreiro ruivo, fazia todo sentido.
-É faz sentido – disse o mago conformado.
-Vocês ingleses são muito tristes. Não tem calor nem paixão. Precisam de mais força. E mais poder. Desistem facilmente.
-Você se refere aos ingleses ou só a mim?
Galtran sorriu e completou.
-Você tem o sangue dos Van Kristen. Uma família nobre e forte pelo sangue. Sua vontade é mais poderosa que qualquer outro ser nessas terras. Mostre um orgulho maior! Mas não humilhe quem esta abaixo de você. É como um código de cavalaria. Parece muito fácil, mas não é tão simples quanto pensa. Com grandes poderes surgem responsabilidades de igual tamanho. Compreende? Não, acho que não. É um inglês! – gritou sorrindo o guerreiro druida – Nunca entendem o que significa ser forte.
-Olha, - disse um irritado Lacktum – não sei qual o motivo de agir feito um garoto comigo. Mas se você acha que isso vai causar algum efeito positivo... Detesto lhe contar, mas não irá.
Galtran se calou. Mas logo continuou com menos empolgação.
-Seus pais foram mortos por Kalic Benton II? Não foi isso? Foi mais de um ano atrás pelo que soube. Ficamos sempre sabendo sobre nossos entes queridos. Mesmo que esses parentes, de muitas gerações ou não, nem saibam sobre nós. Meu filho esta em outro plano de existência[1], por isso não sei muito dele. Nem sei se ele esta vivo. Mas sempre me lembro dele com carinho... Não nos envolvemos com eles, pois podemos ferir quem amamos.
Com tudo isso Lacktum abaixou a cabeça. Só que o guerreiro ruivo continuou:
-Nunca abaixe a cabeça honre a memória deles. Mas se lembre: não será com sangue que vai fazer isso.
-Então será como?
-Isso você terá que descobrir. E sozinho.
O cavalo cruzava a neve com força. O homem de cabelos ruivos e trajes tipicamente dos homens das Terras Altas liderava com um ar de orgulho um grupo enorme de homens armados e, aparentemente, prontos para qualquer problema que surgisse. Eles balançavam as armas que zuniam no ar.
Gritavam frases de ofensas uns aos outros, como brincadeiras tolas de crianças. Hinos de guerra eram entoados, sempre que possível, junto a hinos de morte, com tom de deboche. Lacktum tentava entender como funcionava a mente daqueles homens das Terras Altas. Pareciam moleques armados com espadas e machados. A felicidade deles e suas risadas não acabavam mais. Era como se estivessem se dirigindo a uma enorme festa, ao qual, estavam empolgados demais. Mas se aquele grupo de homens guerreiros se sentia em uma comemoração, o inimigo seria sua refeição como prato principal.

Após descobrir uma boa quantidade do tesouro de Ortro, o grupo foi procurar pelos membros da vila. Era o caminho que não haviam seguido antes.
Não havia mais nenhum ogro. Tochas fortes mostravam onde estavam presos os habitantes da vila. Era uma cela de ferro, com certeza moldada com magia pura. Atrás das grades, os rostos desolados dos moradores, fitavam para o grupo como anjos que vieram lhes tirar do Inferno em vida. Todos lá dentro, mostravam rostos desolados de dor, cansaço e fome.
Halphy foi à frente, preparando os equipamentos para abrir a jaula.
-Esperem um pouco, - falou ela rapidamente enquanto mexia na tranca com os aparelhos – já te soltaremos.
-Graças aos deuses esquecidos! – soltou um deles.
-Quem são vocês? – outro perguntou.
Foi quando Thror soltou, com as mãos na cintura falando:
-Nós somos os Dragões da Justiça!
-Thror... – falou Gustavo com ar de vergonha – Qual o motivo de falar dessa forma para eles? Nem devem nos conhecer.
-Bem, agora nos conhecem.
-Ainda tento compreender sua mente grego louco.
As pessoas da vila saíram da prisão de ferro amedrontadas e  bem lentamente. Devia-se isso ao fato de não confiar plenamente no grupo. Afinal, foram aterrorizados até então pela prole de Argos. Estavam fragilizados, mesmo que ver rostos humanos os tranqüilizasse.
Era possível ver o motivo do ataque a vila. Além de possui meio elfos ali, tinham entre eles filhos de elementais, de gênios, de demônios e dragões. Cada um com suas próprias características. Eram um diferente do outro, em vários aspectos. Chifres, asas, patas, olhos faiscantes, peles de pedra e até um terceiro olho que Thror jura ter visto em uma moça com tom de pele diferente. O que era meio difícil de notar com tantas pessoas impares.
Um homem, um ancião entre os de meio sangue, surgiu como líder daqueles pobres seres. Parecia ser uma mistura de um elfo com dragão. As orelhas eram mais longas que o normal, quase transparentes também. A pele, especialmente próximo do rosto, era cheia de escamas. Os traços élficos superavam os dracônicos, mas ainda assim, mostravam a elegância e o poder de ambas às raças em sua fisionomia. Estranhamente, uma barba longa surgia daquela criatura. Halphy estranhou que tanto o pai e a mãe dele eram criaturas que são conhecidas por sua longevidade e físico excelente.  Ele ainda vestia uma roupa verde cheia detalhes arcanos. Parecia que antigamente foi mago ou algo parecido. Mas agora suas vestes estavam tão mal cuidadas que mais parecia um mendigo.
-Muito grato meus queridos jovens – começou ele – Meu nome é Vardemis Kanon, sou o líder dessa vila. Então possuem o nome de Dragões da Justiça? Muito apropriado.
-Obrigado – disse Halphy calmamente.
-Muito grato – falou Thror.
-Como podemos retribuir ao salvamento de vocês?
-Não precisa! Espoliamos o lugar onde estava a prole – disse Seton segurando um enorme saco de moedas.
Todos os membros do grupo e alguns moradores da vila olhavam para Seton com raiva e espanto. Aqueles que o conheciam duvidavam que fosse um druida. Os que não, achavam que era um louco. Mas nada que fosse para se preocupar. Agora pelo menos.
-Mesmo assim, - continuou o líder da vila – posso os presentear com itens únicos.
Quando ele falou isso, apontou para um meio elfo que começou a correr em sua direção, do fundo da multidão de aldeões. Os membros do grupo não entenderam, mas foi pedido que esperassem. Eles o fizeram, e logo em seguida, e logo em seguida foram surpreendidos com aquele rapaz ao seu lado. Com ele estava: duas espadas longas distintas, uma esfera coberta por um pano e um item pequeno que lembrava o que viram em Delfos.
-Meus amigos – disse Vardemis, enquanto pegava os itens e os distribuía – esses são itens que nos foram concedidos por nossos pais, ancestrais ou entes queridos. E eles agora passarão a ser de vocês, pois os merecem depois do que fizeram por nós. Tomem, e não aceitarei suas recusas de forma alguma. Deixe que explique o que cada uma possui de propriedades arcanas e divinas. A espada negra, com a caveira no cabo, é chamada de Vampira de Almas. Ela drena o adversário até não restar mais nada. É o que dizem as lendas sobre ela. Esta, mais clara e com runas na lâmina, é uma de três irmãs. Fim-dos-Dragões tem um dom sagrado contra os dragões malignos. Seu poder é único contra eles. Já essa esfera – falava isso enquanto retirava o pano que estava sobre ela – é conhecida como bola de cristal. Era muito usada pelos antigos atlantes, pois através de sua magia ela vislumbra longas distâncias. Ótima para estudar inimigos. Desde que saiba onde ele esta. Por ultimo, um espelho com dons parecidos com a bola. Mas com uma habilidade incrível inerente. Ele também lê os corações de quem se vê através dele. Tanto que pode se comunicar com a pessoa escolhida. Esses itens agora são seus. Pois os merecem.
Todos agradeceram e os itens foram distribuídos o melhor possível.
A Vampira de Almas foi entregue para a ladina, com quem muitos acharam estar adequada a arma. Além de ser uma ótima proteção. Já Fim-de-Dragões ficou com o padre, afinal, era ele o mais preparado para tal dom. Outro item caiu nas mãos de Halphy. A bola de cristal foi entregue para ela. Já o espelho se tornava um problema: Arctus e Seton queriam o entregar para Lacktum, enquanto Halphy queria mais um dos presentes. No final, foi guardado.
A meio elfa ficou furiosa com a decisão do grupo, mas precisou aceitar aquilo. Pelo menos por enquanto.
Todos os habitantes  da vila agradeciam aos heróis. Mas nenhum deles se sentia como um. Afinal, eles não sabiam como lidar com pessoas que precisavam de auxilio. Na Grécia e no Reino da França, quase não puderam notar como os agradecimentos eram sinceros.
Com as poucas peles que tinham, Halphy mandava cobrir os pobres seres que moravam na Vila dos Meio Sangue. Eles na eram preparados – em boa parte – para o tempo frio que estava lá fora. Esses que aturavam climas pesados de inverno ficavam sem peles.
Feito a entrega dos itens, assim como as das peles para o bando de refugiados, todos abandonaram a caverna. Um por um, guiados pela ladina, saíram do lugar que foram mantidos como cativos.
Mesmo que a cena fosse deprimente para um espectador desavisado, para os Dragões da Justiça era algo maravilhoso. Pois o que faziam, significava algo maior. Algo de valor.
Arctus abraçava Gustavo e Seton enganchando pelas cabeças de ambos. Era como se por alguns segundos fossem irmãos de sangue. Enquanto os três andavam, Halphy fitou a lâmina com o nome Fim-dos-Dragões. Ela fazia isso enquanto andava. Mas sua espada negra era mais poderosa pensava ela.
Valente arrastava o companheiro furão. Ele ainda estava desmaiado. Como sempre, Furta-Trufas só atrapalhava. Pelo menos era o que o suricate pensava.
O ferido Turin que via tudo de fora da caverna, notava que a frente estava seus familiares. Eram uns dos primeiros a sair daquela escuridão. Os abraçou como se tivessem nascido novamente.
De repente, a águia pousou no braço da jovem dizendo:
-Você foi muito bem Halphy. Uma excelente líder.
-É, mas não vejo o momento em que entregarei esse posto ao Lacktum. Isso cansa a alma!
Thror que ouvia tudo riu por alguns instantes. De qualquer modo, era verdade o que a ave disse. A garota era uma ótima líder. Sempre foi perspicaz e muito capaz, mas naquele dia ela se mostrou apta a liderar um grupo de combatentes.
O dia estava acabando, mas parecia que alguém tinha feito uma linda imagem no horizonte. Como salvadores, os Dragões da Justiça fitavam aqueles com salvaram com orgulho.
-Minha alma parece triste mesmo assim – disse Thror – Gostaria de compartilhar isso com meu pai Orfeu.
-Relaxe. Não é o único – falou Gustavo.

Quando chegavam à vila, as pessoas olhavam com desconfiança para um estranho grupo armado que chegou, pouco depois deles.
Os Dragões partiram na frente dos habitantes da vila. Tinham medo, pois estavam sem boa parte das magias de cura do padre e do druida. Tirando que não houve tempo para curar os aldeões e os membros do grupo de várias das feridas em combate.
Thror sacava sua espada curta, com o escudo de lado. Halphy retirou com as duas mãos, sua espada recém adquirida da bainha, colocando ela na sua frente de modo ameaçador. Gustavo colocou a espada na sua frente, como se fosse um sinal de sorte contra os inimigos estranhos que surgiam. Arctus e Seton foram colocados atrás para quaisquer eventualidades. Valente mostrava os dentes em uma cena bizarra e engraçada. Furta Trufas, que finalmente despertou, desmaiou novamente. Só fiel não era visto. Para o grego isso era até bom.
-Qual é o plano Halphy? – perguntou Gustavo, já se preparando para o combate.
-Não sei. Nem se haverá um combate. Não sei... Mas acho que esses homens não vieram atacar.
-Por Zeus, Poseidon e Hades! Garota dominada pela lua! Acha que vieram então fazer o que, afinal? – soltou Thror com raiva – Brincar?
-Calado Thror! – gritou Arctus.
-Me deixe fazer algo – sugeriu o druida pronto para o combate.
Nesse mesmo instante, o líder atravessou de modo atrapalhado entre os habitantes da vila. Parecia aflito. Logo se intrepôs entre os heróis e os forasteiros. Queria impedir o conflito.
-Se acalmem meus jovens! Eles não são invasores! – disse Vardemis, temendo o pior.
-Então quem são eles? – perguntou a já preocupada Halphy.
Eis que um homem de cabelos longos e ruivos surgiu na frente deles. Era forte. Possuía uma pele de urso cobrindo parte de seu corpo. Dois machados estavam em sua cintura. Havia um pequeno símbolo neles.

Ele desceu de sua montaria conde havia um rapaz encapuzado. Chegou até Vardemis o abraçando. E então olhando para seu rosto, enquanto segurava seu ombro disse:
-Olá velho amigo!
-Galtran! O que faz aqui? Não era sua função proteger as fronteiras?
-Fiquei sabendo que vocês estavam com problemas e então vim auxiliar... Mas parece que era mentira! – disse o ruivo sarcasticamente.
Os habitantes do vilarejo começaram a falar, enquanto os Dragões da Justiça se perguntavam como o guerreiro ficou sabendo dsso. Afinal, eles disso através de Turin que até onde sabiam, tinha sido o único que conseguiu fugir julgo da prole de Argos. E só.
-Me perdoe à indiscrição, mas quem contou a condição dessa vila? – perguntou Halphy diretamente ao tal Galtran.
-Alguém muito arrependido e que quer rever vocês – falou o homem com peles de urso. Nesse momento apontou para sua própria montaria. Havia nela, um homem usando capuz até então que não notaram. Ele o retirou. Era Lacktum. Comum rosto todo inchado, mas era ele.
Todos do grupo aventureiros soltaram sons de alegria.
-Lacktum! – disse Thror completando – Você esta mais feio que o monstro minotauro! Hehe!
-Muito grato – falava isso enquanto saltava do cavalo com certa dificuldade. Parecia bem ferido. Arctus foi ajudar o companheiro.
-Meu Deus! Onde conseguiu tantas marcas? Tem até queimaduras! Onde esteve? Em um combate contra um exército de magos?
Foi quando Lacktum olhou para Galtran com ar de satisfação. Como se tivesse conquistado algo. Agora entendia como aqueles bárbaros pensavam.
-Brinquei com uma bola de fogo.
Os Dragões olhavam com estranhamento, enquanto Lacktum e Galtran riam com um fato desconhecido para o grupo. Novamente, olhos de estranhamento.
Arctus foi levando o amigo até uma cabana, enquanto Valente arrasta Furta Trufas.
-Maldito gordo! – esbravejava o suricate.
Muitos não estranhavam aquela cena da vila, já que conheciam uma grande quantidade de seres bem mais estranhos. Mas os soldados de Galtran olhavam com espanto para os pequenos animais.
Foi quando a ladina feiticeira olhou para Seton. Ela sorriu.
-Que bom! Pelo menos a liderança não esta mais em minhas mãos.
-É – disse Seton – Deveria ser um fardo.
-Era mesmo.



[1] Plano de existência se refere a mundos primários, ou seja, mundos que em resumo tem várias características de Gaya. Mas cada qual, com sua peculiaridade. Mais detalhes durante os outros volumes dos Contos.